Precisamos falar sobre milícias, general. Por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é escritor e publicitário. Filiado à Rede Sustentabilidade.

Os Bolsonaro, pai e filhos, se mostram muito unidos e articulados na forma de pensar e agir. Foi essa percepção, a todo dia confirmada, que levou imediatamente para dentro do Palácio do Planalto a crise: indícios de que havia um esquema conhecido como “rachadinha” no gabinete parlamentar do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.
Tão logo a investigação do Ministério Público foi noticiada, sites e jornais publicaram fotos do atual presidente na intimidade de uma pescaria e dividindo um descontraído chope com o enigmático Queiroz, chefe de gabinete de Flávio e “gerente” da operação ilegal, numa calçada ensolarada da cidade maravilhosa. Isto é, tudo em casa.
O destino da apuração e do presidente se ataram por completo quando ele passou a comprometer a autonomia dos órgãos de inteligência e investigação do seu governo, não sem uma providencial ajuda do presidente do STF, Dias Toffoli, pondo termos ao livre trânsito interno de informações sem ordem judicial. Uma atitude francamente suspeita, ainda mais considerando as expectativas de moralidade que o conduziram até lá.
Como se sabe, o problema maior ali nem é a prática ilegal de receber dos funcionários parte de seus proventos, mas algo ainda mais comprometedor que a investigação revelara: surpreendente número de servidores tem ligações familiares com figurinhas carimbadas dos grupos de milícias que atuam na periferia do Rio.
Flávio não apenas empregou mãe e irmã de miliciano (ex-policial afastado da corporação), como condecorou um deles (posteriormente preso e condenado) e, com a imunidade que a função lhe confere, defendeu até mesmo a legalização dos grupos (como antes já o fizera seu pai na tribuna do congresso). Que estejam por aí, em muitas fotos, confraternizando com eles e tendo-os como vizinhos é apenas a face pitoresca de um caso grave.
Milícias, como todos sabem, são grupos paramilitares que atuam em comunidades vulneráveis com práticas de extorsão, monopólio no comércio de artigos de consumo intensivo (de gás de cozinha a cartões pré-pagos), planejamento e execução de assassinatos por encomenda e, eis o maior problema para você, general: fazem tráfico de armas.
Sim, general: as milícias compram, vendem e usam equipamentos bélicos de uso exclusivo das Forças Armadas. Somente este fato, se os demais citados não fossem (porque são!) suficientes, já deveria levar a instituição militar, e seus membros alojados em cargos civis de confiança, uma atitude de maior rigor.
Não é sobre política, general. É questão de Estado: em nenhuma hipótese deve ser permitida qualquer forma de aproximação das Forças Armadas, e de seu Comandante em chefe, o Presidente da República, com personagens que atuam no obscuro ramo paramilitar.
Não acuso Bolsonaro de miliciano, apesar do estranho compadrio (até aí, o campo das abstrações). Mas é fácil perceber as relações perigosas: basta cruzar os mapas de votação das zonas eleitorais com as manchas urbanas, no Rio de Janeiro, onde aquelas organizações atuam com maior presença. Desculpe o trocadilho, general: é tiro e queda.
Para o equilíbrio republicano e a preservação da instituição militar, é preciso que as Forças Armadas exijam do presidente maior esforço na elucidação de diversos aspectos que frequentemente o colocam como muito mais do que um coincidente vizinho daquela gente má.
Certamente, general, seus colegas Santos Cruz e Santa Rosa (dois quatro estrelas que já desistiram de auxiliar o governo) sejam interlocutores mais receptivos a esse tipo de conversa. Fale com os seus sobre milícias, general. É necessário, taoquei?

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