Coincidências eloquentes

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho
rui.martinho@terra.com.br
Algumas coincidências se repetem incansavelmente na vida política brasileira. Quem acha que uma condenação na Justiça do Trabalho descredencia para o cargo de Ministro do Trabalho, embora ações desta natureza não produzam restrições quanto ao exercício da cidadania, como é o caso da deputada Cristiane Brasil, coincidentemente, também entende, quase sempre, que uma condenação em sede de ação penal não desqualifica o ex-presidente Lula para o exercício da Presidência da República, sem se importar com o fato da condenação em espécie referir-se ao crime de improbidade administrativa.
Quem acha que malas contendo, dinheiro apreendidas em poder de terceiros, incriminam o presidente Temer, sem a necessidade de comprovação do nexo entre as citadas malas e o ato do presidente decorrente da vantagem indevida, coincidentemente, entende, quase invariavelmente, que é preciso provar a existência de um ato de ofício do ex-presidente Lula vinculado ao recebimento de vantagem indevida. Quem acha que provas indiretas ou lógico-formais não servem de arrimo para a condenação do ex-presidente Lula, desclassificando-as como “meras ilações”, coincidentemente admite, sem nenhum constrangimento, tais provas como fundamento de validade para a condenação do Temer.
Quem critica a politização do Poder Judiciário, quando se trate do Brasil, tende a aplaudir a politização do judiciário na Venezuela ou em Cuba. Que manifesta revolta diante da ingerência estrangeira nos assuntos internos do Brasil, aprova entusiasticamente, a intromissão de parlamentares americanos no processo penal em que o Lula é réu, desde que tal intromissão seja favorável ao ex-presidente. Assim também a reforma da previdência e a atração de capital estrangeiro invariavelmente serão defendidas quando o emitente da opinião, coincidentemente, estiver no governo, sendo, porém, execradas quando o declarante, sempre coincidentemente, estiver na oposição. Assim é que quem hoje está na oposição condena a dita reforma e o capital estrangeiro, quando no governo defendeu a necessidade de reformar a previdência e chegou a jactar-se de ser campeão da arte de atrair capital estrangeiro, sem se retratar por ter feito oposição as duas coisas e sem registrar que atraía capital especulativo, mas anteriormente criticava a atração de capital produtivo. Não é preciso explicar as coincidências.
 
 
 

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