Adversário, mas… Por João de Paula

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Fortaleza Nobre | Resgatando a Fortaleza antiga : Universidade Federal do  Ceará - UFC

Sou seu adversário você é de esquerda e eu, de direita –, mas não posso deixar de lhe recomendar que se esconda ou será sequestrado.

Foi o que me disse Denizard Macedo, vice-reitor de Assistência Estudantil, quando, a seu chamado, entrei em seu gabinete na Reitoria da Universidade Federal do Ceará. Contou-me, então, que, por meio de um colega de ensino no Colégio Militar, soubera da decisão de alguns oficiais do Exército de me sequestrar, como vingança pelo protesto que eu fizera na Aula Inaugural de 1968 da universidade.

Que o vice-reitor era de direita, não havia dúvidas entre os estudantes da UFC. Ele deixava isso claro em seus posicionamentos como autoridade universitária e não ocultava sua militância integralista na juventude, chegando a dizer que queria ser enterrado com a camisa daquele movimento – uma espécie de versão brasileira do fascismo italiano.

O professor Denizard tinha razão também em declarar-se meu adversário, pois, como presidente do DCE – Diretório Central dos Estudantes –, eu lutava contra a insensibilidade dos dirigentes da universidade às reivindicações estudantis e resistia à opressão exercida pela ditadura militar no país. Porém, ele fez questão de enfatizar naquela conversa que “era a favor de combater minha atuação, mas não com uso de violência”, razão pela qual me avisava sobre o perigo iminente.

O desejo de vingança daqueles oficiais do Exército devia-se a um pronunciamento que fiz, como presidente do DCE, contra a decisão do então reitor da UFC, Fernando Leite, de convidar, para proferir a chamada Aula Magna daquele ano, o comandante da 10ª Região Militar, em vez de um professor de notável saber.

No auditório da Faculdade de Direito, após a fala de abertura do reitor e antes que o general Dilermando Monteiro iniciasse sua palestra, levantei-me na plateia, esclareci a discordância dos representantes dos estudantes com aquele evento e convidei os colegas presentes a nos retirarmos ordeiramente do recinto.

O reitor da UFC, que tomou essa atitude, foi o mesmo que tentou pessoalmente impedir Dom Fragoso, bispo da Diocese de Crateús, de falar aos estudantes durante uma visita ao CEU – Clube do Estudante Universitário.

A subserviência da cúpula da universidade aos ditames da ditadura militar não parou aí. Por proposta do reitor, o Conselho Universitário puniu o DCE pelo meu posicionamento na Aula Magna, suspendendo suas atividades por seis meses. Os estudantes da UFC repudiaram essa medida injusta, e o DCE continuou a funcionar quase plenamente.

A postura do reitor foi condenada não apenas pelos estudantes, mas também por professores da universidade. O jurista Roberto Martins Rodrigues, professor da Faculdade de Direito, deu uma corajosa declaração pública, criticando o ato do reitor e apoiando a posição do DCE.

Outros professores, em várias faculdades, também se manifestaram. Nesse contexto, fui convidado para uma conversa sobre o episódio com docentes da Faculdade de Medicina, a convite de seu diretor, Walter Cantídio. Entre os presentes estava Valdemar Alcântara, professor e ex-governador do Ceará, que relatou ter sido consultado pelo reitor Fernando Leite sobre como lidar com a crise provocada pela Aula Magna. Sua resposta foi contundente: “Fernando, por que você não me consultou antes de fazer a grande besteira de convidar um general para dar aula para estudantes, quando o país vive sob uma ditadura militar?”

No que me dizia respeito diretamente, devido à ameaça de sequestro, tive que mudar minhas rotinas. Passei a dormir na casa de colegas, restringi minha frequência às aulas, deslocava-me em segredo, chegava de surpresa aos eventos estudantis – enfim, levei, durante certo período, uma vida semiclandestina.

No ano seguinte, em mais um ato de submissão, a UFC expulsou a mim e a vários outros estudantes com base no famigerado Decreto-Lei 477, editado pelo governo militar. Em consequência, minha formatura em Medicina, que deveria ocorrer naquele ano, só aconteceu dez anos depois, na Faculdade de Medicina da Universidade de Colônia, na Alemanha – país onde me exilei para fugir da perseguição da ditadura.

O que aconteceu desde minha expulsão da UFC até meu retorno ao Brasil, depois de sete anos de exílio, é assunto para outra ocasião. Relevante agora é destacar a reparação das injustiças cometidas contra mim pelas autoridades da Universidade Federal do Ceará.

Imagem: Ex-reitor René Barreira falando no púpito, na Reitoria (Imagem: Arlindo Barreto/Memorial da UFC)A primeira ação de reparação ocorreu em 2004, quando, por iniciativa do então reitor René Barreira, no âmbito das comemorações do cinquentenário da UFC, fui agraciado com a honrosa Medalha Reitor Martins Filho – homenagem ao fundador e primeiro reitor da universidade.

O segundo gesto de reparação aconteceu em 2024, nas comemorações dos 70 anos da UFC, quando o reitor Custódio Almeida entregou a mim e a algumas dezenas de ex-estudantes o Termo de Reconciliação Histórica com a Democracia e os Direitos Humanos, que “estabelece uma reconciliação histórica com todos os sujeitos – servidores(as) e estudantes – que sofreram indignas, danosas e degradantes violações decorrentes das lutas pelas liberdades, por direitos e pela democracia nos anos de exceção.”

Com essas duas ações, considero que a UFC saldou a dívida que tinha para comigo.

João de Paula Monteiro Ferreira, 79 anos, ex-presidente do DCE da UFC, ex-diretor da UNE, médico especialista em psicoterapia e psicologia organizacional, formado pela Medizinische Fakultæt der Universitæt zu Kœln, República Federal da Alemanha.

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