Árvore genealógica. Por Angela Barros Leal

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Por Angela Barros Leal
Articulista do Focus

Quando a tia dele faleceu, aos 95 anos, depois de oito anos desligada do mundo, coube a ele a herança dos papéis. Vizinhos e cuidadoras levaram os móveis da sala, os quadros, as garrafas de licor em bico de jaca, os poucos copos de cristal sobreviventes ao tempo, as almofadas, os eletrodomésticos, as figurinhas em gesso do presépio do Natal, as colchas de cama bordadas a mão.

Os papéis, esses ficaram amontoados dentro do guarda-roupa embutido, no quarto onde a tia dormira seu sonho de oito anos. Ele levou os papéis para casa, em duas caixas grandes de papelão. Ia ser possível desenhar a árvore genealógica da família, um desejo que sempre tivera.

As caixas foram abertas sobre a mesa da sala, e os papéis distribuídos em pilhas de igual altura. Estava disposto a ver todos eles, um a um. E lá reencontrara histórias que ouvira da mãe e do pai, como se fossem lendas escritas em livros, documentadas agora na letra firme dos cartórios e das cadernetas de anotações.

Estava lá a história do tio-avô, criador e fazendeiro, que depois de mordido por um cão de rua, e ao conhecer o diagnóstico de hidrofobia, ordenara ser amarrado a uma árvore, e ter ignorados seus apelos por socorro: não queria transmitir o mal a mais ninguém, como se previa fadado a acontecer, quando se transformasse em lobisomem. 

Assim encontra o nome dos bisavôs, paternos e maternos, algo que nem seus pais conheciam: parece que a memória dos antepassados não costuma chegar à quarta geração.

Lá estava a fotografia dos avós no dia do casamento, a elegância do avô, de coluna altiva, a beleza da avó com seus olhos pisados, prevendo os onze filhos que viriam e que não veria crescer, morrendo, como morreu, aos 39 anos de idade.

Lá estava a fotografia das dez crianças órfãs, o pai dele, os tios e tias, postadas em três fileiras pela ordem de idade e tamanho, ausente apenas o penúltimo filho, o único partido antes da mãe, ainda no berço. 

Eram quatro homens e seis mulheres, das quais somente uma casaria, e estabeleceria sua própria árvore genealógica. A primogênita se faria freira franciscana. Das outras quatro, uma faleceria jovem, no Rio de Janeiro, deixando as três restantes para unirem seus destinos de solidão sob o mesmo teto, até restar apenas a tia que partira aos 95 anos.

As três leriam, em 1957, o telegrama aflito do irmão militar, solteiro, residente no Rio, na casa de quem a irmã buscara um impossível futuro. A notícia batera à porta delas na forma de mensagem da The Western Telegraph Co. Ltd., na brevidade sem ponto nem vírgula dos telegramas: “DECÉLIA FALECEU HOJE CHEGUEI VIAGEM PANAMA NÃO TENHO POSSES FAZER ENTERRO ESTOU DESORIENTADO BENEDITO”.

Estão lá, no meio da pilha, os recibos confirmando o sepultamento dela no Cemitério de Jacarepaguá, no mesmo dia. Ele traduz isso como a presteza dos irmãos em solucionar uma situação concreta, embora não encontre registros que confirmem o sofrimento deles todos pela perda. Lágrimas não deixam traços e o choro não tem rastro.

Uma antiga questão de terras no município onde todos eles nasceram, Espírito Santo de Morada Nova, emerge da pilha de documentos. A desapropriação das terras do avô, executada pelo Departamento Nacional de Obras Contra a Seca, para dar espaço à implantação do projeto de irrigação do açude público Arrojado Lisboa.

Cada item avaliado para os fins legais teve sua contabilidade anotada no documento, que findara empurrando o avô para definhar na Capital, cidade grande que nada representava para ele, um homem do sertão, saudoso até o fim do cheiro da sua terra, do mugido do gado, dos velhos amigos. 

Em 1967, tinha sido forçado a dar adeus a tudo que o Laudo de Avaliação listara: as cercas de pau a pique, amarradas com fios de arame fino; os tantos hectares de aluvião fluvial; os pés de carnaúba, fonte produtora de cera e madeira; os milhares de pés de pau-branco e de umburana, de pereiro e de cumaru, de pau d´arco e de aroeira, de angico e de oiticica; as árvores frutíferas de cajarana, cajá e tamarindo, todas elas em franca produção, frutas azedas como a dor da desapropriação.

Lá estavam descritas as casas e abrigos erguidos no terreno: uma casa de taipa, não rebocada, coberta de telha, com piso misto de tijolo e chão batido; outra com piso de cimento, em reboco e com argamassa de cal e areia; um abrigo sobre forquilhas, coberto de telha colonial; cinco cacimbões de alvenaria de tijolo, abastecendo a família com água vinda de até 6 metros de profundidade. Isso tudo ele encontra em apenas uma das pilhas.

Um quebra-cabeças de peças que ele pretende organizar aos poucos, utilizando um modelo de árvore genealógica disponibilizado na internet, qual um desbravador traçando seu caminho de volta até às raízes. Para ele, havia ficado com o bem de maior valor.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder 

 

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