As eleições americanas e o futuro da liderança global, por Priscilla Peixoto do Amaral

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Priscilla Peixoto do Amaral é empresária, advogada especializada em direito empresarial internacional. Mestre (LL.m) em Direito Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas e possui MBA em Strategic Business Management pela Ohio University nos EUA. Escreve no Focus.jor semanalmente. E-mail: priscillacpamaral@gmail.com

Priscilla Peixoto do Amaral
Post convidado

Contrariando diversas previsões tidas à época, um fato curioso ocorreu com o fim da Guerra Fria: O conjunto de alianças geopolíticas criado pelos estrategistas dos Estados Unidos para travar a longa Guerra Fria perpetuou como antes. O contrário, no entanto, não ocorreu: O Pacto de Varsóvia, que foi liderado pelos soviéticos, arruinou-se antes mesmo da própria União Soviética se desintegrar.

Ao longo dos anos, a OTAN esteve à frente de diversas e importantes causas. Buscou expandir e democratizar a Europa Oriental na década de 1990, ao passo que durante a década de 2000 combateu uma contra insurgência no Afeganistão e forneceu treinamento militar no Iraque. O mesmo ocorreu com a aliança Estados Unidos-Japão; e uma variedade de outras composições mais e menos formais, as quais vêm persistindo, embora suas lógicas originais tenham caído no esquecimento.

Estas alianças atualmente estão passando por algo que podemos comparar a uma “jornada em busca contínua por significado e propósito”, talvez uma versão institucional de Comer, Rezar e Amar.

Os membros das alianças estão buscando encontrar um “verdadeiro propósito” para substituir a força motriz criada à época da Guerra Fria, uma corrida que ainda é mais acelerada para justificar sua existência para um público americano que geralmente é apático – ou até mesmo hostil –  à promessa de investimentos e proteção de aliados que a maioria não consegue sequer localizar em um mapa.

No que pese a constante busca por um propósito, e no que pese muitos líderes terem lutado sobre o quanto expandir a OTAN e sobre como obter maiores contribuições dos aliados para as missões e gastos das alianças, a verdade é que a devoção do establishment da política externa dos EUA às alianças nunca falhou no período pós-Guerra Fria. Desde sua criação, os líderes mais mainstreamers de Washington jamais questionaram seriamente as vantagens destas.

Seja qual for a pergunta de política externa que o público global faça – “como promovemos a democratização?”; “Como combatemos o terrorismo?” -, parte da resposta sempre foi: com alianças com os EUA.

No entanto, com a presidência de Donald Trump em 2017, iniciou-se o primeiro desafio político sério às continuidades das alianças. Para Trump – inclusive amplamente discutido em sua campanha – a OTAN e a aliança do Japão eram negócios ruins para os Estados Unidos. “Estamos protegendo [os membros da OTAN], dando-lhes proteção militar e outras coisas”, declarou Trump em um comício de campanha de 2016, “e eles estão roubando os Estados Unidos”. Em verdade, Trump explora um profundo descontentamento do público com a política externa dos EUA: a de que as alianças não valem o investimento e levaram a nação a travar as batalhas de outras pessoas por elas.

Durante a sua presidência, Trump sempre deixou claro o seu aborrecimento com as alianças ao afirmar em 2019, por exemplo, que “a Europa nos trata pior do que a China”, comparando os seus aliados democráticos mais próximos desfavoravelmente ao seu maior adversário autoritário. “As nações europeias foram criadas para tirar vantagem dos Estados Unidos.”. Sua ideia é de ir lentamente, mas seguramente, eliminando estes sistemas em seu possível segundo mandato.

Ironicamente, seu desafio político ao sistema de alianças veio no momento em que ele encontrou um novo problema para o qual as alianças poderiam ser a solução. Com a ascensão da China e o ressurgimento da Rússia, a rede de alianças dos EUA estaria em seu melhor momento para retornar às suas raízes e descrever uma missão clara e compreensível?

Ao contrário do passado, o inimigo que era formado pelo bloco comunista liderado pela Rússia e apoiado pela China transformou-se em um bloco liderado pela China e apoiado pela Rússia, mas o conceito básico permanece o mesmo.  Mais uma vez, por meio de suas alianças, os Estados Unidos poderiam exercer uma liderança global em uma luta épica contra um inimigo ideológico?

É o que afirma positivamente a estrategista de Biden, Mira Rapp-Hooper, cientista política e especialista em segurança na região Ásia-Pacífico autora do livro Shields of the Republic: The Triumph and Perils of America’s Alliances. Rapp-Hooper entende por perpetuar as forças das alianças, demonstrando como estas têm sido úteis, mesmo durante o seu período de “imersão em busca de um propósito”. A rede de alianças da América, assim, desempenharia um papel fundamental na manutenção da liderança global dos EUA.

Biden traça um forte contraste com a política externa do governo Trump. Ele critica a abordagem que diz ser “inconsistente e incompetente do governo Trump; seu curioso caso de amor com Putin e outros líderes autoritários e sua difamação constante dos aliados dos EUA.” O retorno de Biden à ortodoxia, portanto, promete revigorar o sistema de alianças dos EUA.

Para os democratas, o maior pecado da política externa de Trump, seria, nessa visão, sua abdicação da liderança global em favor de interesses mais “caseiros”. Para que esse ponto não seja perdido, Biden intitulou seu manifesto de política externa, “Por que a América deve liderar novamente.” A liderança foi a estratégia para a Guerra Fria depois de 1945; foi o meio para gerir o momento unipolar e ampliar o âmbito das democracias na década de 1990; foi o mecanismo para combater a guerra global contra o terrorismo nos anos 2000 e 2010; e agora afirma ser a maneira de administrar uma nova competição geopolítica com poderes autoritários.

Muita coisa mudou desde o fim da Guerra Fria. Os ataques de 11 de setembro, a guerra no Iraque, a crise financeira global, o ressurgimento da Rússia, a ascensão da China, a reação populista contra a globalização e agora uma pandemia global fortaleceram uma tendência aparentemente inexorável de declínio relativo dos EUA no poder. Até certo ponto, esse declínio era inevitável, mesmo que o caminho específico muitas vezes tenha sido uma surpresa. O momento unipolar após a queda da União Soviética não poderia durar; novos poderes estavam prestes a surgir, e agora eles surgiram.

A premissa central do sistema de política externa é que apenas os Estados Unidos podem liderar o mundo livre. Mas essa suposição parece cada vez mais ameaçada, mais recentemente pela pandemia. Como seria a política externa sem os Estados Unidos?

As alianças não são inerentemente boas nem más. Se alianças específicas são uma boa ideia, depende muito do que você deseja fazer com elas. Se os Estados Unidos decidirem que precisam travar uma nova Guerra Fria com a China ou a Rússia (ou ambos), uma rede estreita de alianças provavelmente seria muito útil, como foi durante a Guerra Fria? Como Rapp-Hooper observa, “as alianças são meios para atingir fins estratégicos, não objetivos em si mesmos – eles não podem permanecer estáticos enquanto a estratégia americana se transforma”.

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