Até nunca mais. Por Angela Barros Leal

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O QUE EU DISSE A ELA, na hora em que fiz o pagamento, depois que ela me entregou a sacola com as minhas compras, depois de escutar as respostas ríspidas que ela dera a todas as minhas perguntas, depois de ser repreendida por buscar uma roupa sob uma pilha que ela estava organizando, depois ter me deixado fuzilar pelos olhos dela, contornados de lápis preto, por eu não ter colocado uma bolsa de volta no local exato onde ela a deixara, depois ainda de me ter sentido incomodada com a aura de rancor gerada à volta dela, o que eu disse a ela foi: Talvez você não esteja tendo um dia bom, talvez você tenha acordado de mau humor, mas mesmo assim você deve tratar bem os clientes, se ainda não tiver lido o slogan dessa loja onde estamos, veja o que está escrito aqui, nessa sacola, People to People, o que significa Humanidade, Respeito, e isso não envolve essa insatisfação que você está demonstrando, seja gentil não só comigo, mas com todos os clientes que estão aqui, somos nós que garantimos seu emprego, muito obrigada e até nunca mais.

O QUE ELA ME DISSE, na calçada estreita, poucos passos depois da saída da loja, para onde correu e me alcançou, deixando a loja desassistida, porém ainda em tempo de me dar a resposta que ela não suportaria ter presa em sua garganta: Há três dias estou cá a trabalhar, sozinha, sem ajuda alguma, a receber roupas, a separar, organizar, a recolocá-las de volta nos cabideiros e prateleiras, a responder perguntas estúpidas, a recolher peças caídas no piso, a registrar as compras no caixa, estou a dormir dentro do meu carro, minha casa tem sido o meu carro, disseram-me que Lisboa era uma cidade agradável, mas é uma merda, tu não deves julgar uma pessoa sem saber o que ela está passando, por isso deixei agora a loja desassistida, para esclarecer a ti o que se passa comigo.

O QUE EU PENSEI, pois não consegui emitir uma única palavra, tanto pela surpresa de ter a moça à minha frente como pela intensidade com que ela se dirigiu a mim, meus olhos fixos nos olhos dela, circundados de lápis preto, enxergando nas pupilas escuras uma noite, e mais sei lá quantas noites, buscando posição para descansar no banco traseiro de um carro, estacionado em algum local discreto, de modo a não despertar a atenção dos policiais do trânsito, e ao mesmo tempo em um local visível, cuidando de estar a salvo das violências a que estão sujeitas moças jovens e sozinhas, o que eu pensei foi: Onde estão seus pais, se é que existem, onde está sua família, que deixou você partir, de qual cidade, de qual vila, qual aldeia veio você para Lisboa, quem disse a você que em cidade grande bate um coração, como você se preparou para vir, que planos você construiu, que sonhos você sonhou, o que você esperava receber, onde você almoça, onde toma banho, em qual espelho traça o risco escuro em volta de seus olhos, como você conseguiu esse trabalho, por que você não se queixa a seu chefe, a seus chefes, da sobrecarga de funções, e pensei em dizer desculpe mas não disse, porque não sou tão boazinha assim, pensei em dizer entendo, entendo, mas sem entender nada, porque era a vida dela, que nada tinha em comum com a minha vida, nem na idade, nem na esbeltez, nem na coragem de não deixar uma crítica sem resposta, nem na determinação de abandonar seu posto de trabalho por alguns minutos, sabendo que mais difícil ainda seria dormir à noite com aquela contração na garganta por não ter dito, a mim, as palavras que não conseguiria engolir, a mim, que nunca precisara dormir uma noite dentro de um carro, e se alguma vez o tivesse feito, teria sido como uma brincadeira, como um desafio, e não empurrada pela precisão, a mim, que nunca soube o que é não ter o próprio teto a cobrir e proteger os dias.

O QUE EU FIZ, pois de minha boca não saíra uma só palavra, foi estender os braços e abraçá-la qual fosse ela uma filha ausente, que decidira retornar à casa, abraçá-la qual fôssemos as derradeiras sobreviventes de um Apocalipse nuclear, apertando contra o meu corpo o corpo estreito dela, recoberto apenas por um vestido curto e tatuagens, e eu, acolchoada de lãs, casaco e cachecol, quem nos visse poderia concluir que se tratavam de duas pessoas muito próximas se despedindo, ou se reencontrando, não havia como pensar de outra maneira, pelo tempo em que ficamos abraçadas, atrapalhando a passagem dos pedestres, quem sabe fosse o primeiro contato físico dela com outro ser humano em muito tempo, e que outra ajuda poderia eu dar a ela, eu turista, abrigada em casa alheia, até nos separarmos e ela retornar à loja abandonada, e seguirmos em direções opostas, e lá se foi a moça, para viver o resto de sua vida, enquanto eu iria seguir adiante tendo tatuada na minha mente a lembrança da coragem dela, e iria em frente carregando uma mancha escura no meu casaco, impressa pelo lápis preto que dava contorno aos olhos molhados dela, nós duas repetindo o mesmo até nunca mais.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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