Blinken e Lula: Nem doeu. Por Ricardo Alcântara

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O vira latismo com que a imprensa brasileira em geral, e até mesmo alguns aliados de esquerda, trataram as declarações com que Lula colocou o guizo do genocídio no pescoço do gato Netanyahu revelou sua relevância menor agora, com o encontro amistoso entre Antony Blinken, secretário de Estado do governo Biden, e o presidente do Brasil.

Instado a falar sobre o caso, Blinken se resumiu a dizer que “genocídio” não é o termo que seu governo usa para definir o que se passa em Gaza. E só. Nenhuma crítica adjetiva a Lula, a não ser a demonstração de prestígio ao estender para duas horas uma reunião prevista para 40 minutos.

Filho, aprenda: na diplomacia, tudo é símbolo! A forma amena como o primeiro secretário do governo norte americano lidou com o assunto pode significar algo que a lavagem cerebral da grande imprensa não permitiu que você visse: no caso específico do conflito em Gaza, os EUA temem perder parte do controle político que exercem sobre o estado de Israel e, portanto, podem ler a posição de Lula, como a dos 80 países signatários da denúncia na Corte de Haia, como um freio providencial, acionado sem ônus para o império do Norte.

Que a big mídia tupiniquim haja assim, nada de novo sob o sol: Folha, Estadão, Globo, Record et caterva já mostraram em anos recentes tudo de que são capazes para impedir que no Brasil governem aliados dos trabalhadores: foram as mães de leite zelosas de Lava Jato, Impeachment, Bolsonaro e toda a borra fascista que emergiu com tudo aquilo.

Nós, os democratas de fato, é que não deveríamos mais ser reprovados nessa matéria tantas vezes vista. Imprudente ou oportuna, a menção que Lula fez ao holocausto ao denunciar Israel como estado genocida não provocou, nem provocará a sexta parte do que nossa imprensa previu como prejuízo para o trânsito externo da diplomacia brasileira.

Lula poderia ter se expressado melhor? Sim, poderia. Improviso sobre temas complexos nunca foi o seu forte. Mentiu ou pelo menos distorceu? Não. Aquilo lá é um genocídio como o holocausto também foi. Agrava moralmente o fato de que o sujeito do atual massacre seja a mesma vítima do anterior? Sim, e muito. E lideranças políticas de todo o mundo sabem muito bem disso tudo. Antony Blinken, inclusive. Seu chefe também.

 

Ricardo Alcântara é escritor, publicitário, profissional do marketing político e articulista do Focus.

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