Camilo deveria pôr as barbas de molho quanto à vacina Sputnik V

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Sputnik. Foto: União Química

Por Fábio Campos
fabiocampos@focuspoder.com.br

Talvez seja o caso de o governador Camilo Santana ser mais comedido em relação à vacina Sputnik V. Nem mesmo a Russia, sua criadora, conseguiu emplacar o imunizante internamente. Das dezenas de países que aprovaram o uso da vacina, nenhum tem um sistema de saúde de referência. E agora surgem ponderações de um sanitarista historicamente ligado à esquerda, o ex-presidente da Anvisa, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto.

Vejam o que ele disse em entrevista à GloboNews: “Todas as vacinas de vetor viral, estou me referindo basicamente a Jassen e a Oxford-Astrazeneca, estão com problemas de efeitos trombóticos muito raros, mas têm aparecido. Esta vacina usa a mesma tecnologia e nós não temos nenhum evento relatado sobre fármaco vigilância após a utilização da vacina. Será que ela é tão diferente assim ou será que não existe a transparência dos dados? Eu estou desconfiado da vacina da Sputnik V”.

E prosseguiu: “As exigências que a Anvisa está fazendo não são exigências da Anvisa, são exigências de todas as agências de bom padrão no mundo inteiro. Essa vacina não tem registro em nenhum país das agências mais importantes. Os melhores países onde eles têm registro é México e Argentina. “México tem uma vigilância sanitária sofrível e a Argentina tinha uma vigilância sanitária boa, mas sofreu muito nos últimos anos. Então, eu acho que nós teríamos que tomar cuidado”.

O Ceará e outros estados nordestinos brigam no Supremo pelo direito de importar a Sputnik. No nosso caso, o contrato de compra prevê 5,87 milhões de doses da vacina. Algo suficiente para a primeira dose de quase a metade de nossa população. Isso se o Estado não for obrigado a ceder as ampolas para o Programa Nacional de Imunização, como ocorreu com a Coronavac.

Detalhe: a decisão do ministro Ricardo Lewandowisk, que liberou a importação pelo Ceará, determina que a responsabilidade por possíveis consequências da vacinação passa a ser do estado importador e responsável pela aplicação.

Nesta segunda-feira, 26, a Anvisa vai se reunir para se posicionar sobre a ação patrocinada pelo Ceará e outros estados para que o STF libere a importação.

É aconselhável que o governador e o secretário Cabeto coloquem as barbas de molho quanto aos resultados da Sputnik. Afinal, transparência não é o forte dos procedimentos relacionados à vacina até aqui.

Recente reportagem do El País mostrou que apenas 3,23% da população da Russia recebeu as duas doses do imunizante desenvolvido pelo Instituto Gamaleya, de Moscou. 4,74% tiveram acesso à primeira, segundo dados do Ministério da Saúde. Portanto, um resultado até menor do que o brasileiro.

A Sputnik ainda está em processo de revisão pela Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês). Ou seja, a Europa, que sofre com falta de vacinas, ainda não deu OK para o imunizante russo. Portanto, o mais inteligente seria o Ceará esperar pelo menos a decisão da agência europeia antes de queimar uma fortuna na compra da vacina cuja análise não consegue avançar no Brasil por falta de documentação adequada.

Detalhe: até 17 de março, as fábricas russas produziram 20 milhões de doses e puseram em circulação 8,9 milhões de kits completos, segundo o Ministério da Indústria. Os problemas de fabricação do segundo componente da vacina e a escassez de equipamentos de biotecnologia atrapalharam o processo, que Moscou tenta acelerar agora ao agregar outros laboratórios russos à linha de produção e assinando contratos com a Índia, Coreia do Sul, Cazaquistão e China (El País).

Ou seja, não há ainda vacina em quantidade capaz de suprir a imensa quantidade de encomendas feitas à Russia e nem a demanda interna do país que a criou.

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