Esqueçam o conflito entre lockdown versus não lockdown

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José Carlos Juca Pompeu Filho é médico cardiologista do Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes e professor da cadeira de Cardiologia da Faculdade de Medicina da UNIFOR. Possui doutorado em Cardiologia pelo InCor/FMUSP.

Esqueçam a discussão sobre lockdown versus não lockdown. Esqueçam a dicotomia entre saúde e economia. Não levemos o debate por este caminho. Afinal, o tema é complexo, envolve muitas variáveis e existem bons argumentos de quem defende tanto um ponto de vista quanto o outro.

Reflitamos juntos aqui apenas sobre aquilo que é consensual.

Dificilmente alguém transmite o vírus para outra pessoa em ambiente aberto se ambas estiverem a mais de dois metros de distância. Logo, é importante o denominado distanciamento social, que nada tem a ver com o lockdown, mas apenas com a atitude individual de tentarmos nos manter – quando possível – a uma distância segura uns dos outros.

Um outro ponto de consenso é o de que o uso de máscaras dificulta a transmissão viral entre as pessoas. E o motivo é óbvio: máscaras retém as gotículas com os vírus diminuindo assim a contaminação ambiental. Logo, usar boas máscaras (como a PFF2 ou N95) sobretudo em situações onde não seja possível manter o distanciamento social (como no transporte público) deveria ser obrigatório.

Eu tenho certeza de que a maioria dos patrões preferiria fornecer semanalmente uma máscara dessas aos seus funcionários a fechar os seus negócios. Esta, entretanto, é uma outra discussão. Voltemos ao que é consensual.

Acredito também que quase ninguém discorda da relevância da vacinação em massa. Mesmo os mais reticentes em relação ao tema já começam a se aperceber de que países em fase avançada da vacinação coletiva já começam a colher os frutos – inclusive econômicos – desta medida de saúde pública.

Pois bem. Quase ninguém com algum juízo neste mundo de Meu Deus – mesmo o mais libertário dos indivíduos – discorda da necessidade do distanciamento social, do uso de boas máscaras em determinadas circunstâncias e da imperatividade da vacinação universal.

Você pode ser mais favorável à defesa da saúde pública. Pode até ser daqueles que acha que a “economia é vida”, mas ninguém, repito ninguém, com um mínimo de bom senso, patriotismo, amor ao próximo e funções cognitivas preservadas discorda da necessidade da adoção destas três medidas. Afinal elas não apenas salvam vidas, como também são boas para a economia!

O que particularmente me choca é que nosso presidente aglomera sistematicamente, acha pouco relevante o uso de máscaras (inclusive não as usa nas aglomerações), não pratica, portanto, o distanciamento social e se nega a receber a vacina (um claro sinal de desestímulo para seus milhões de seguidores e admiradores).

Eu me pergunto: e se todos decidíssemos fazer o mesmo? Seria bom ou ruim para a saúde coletiva? Seria bom ou ruim para a economia? Este comportamento ajudaria ou atrapalharia no controle da pandemia? Promoveria a disseminação viral ou sua contenção?

Ainda que decidíssemos pelo chamado isolamento vertical proposto por nosso presidente – algo até defensável em momentos menos dramáticos – no que mesmo este tipo de comportamento presidencial está ajudando no que quer que seja?

O que leva o chefe da nação a sabotar de forma ampla, geral e irrestrita a saúde pública e a economia de sua própria gente? Qual o objetivo de se pretender deliberadamente promover um ambiente de caos em seu próprio país? Ou alguém acha que este tipo de comportamento não “ajuda” na imperatividade de lockdowns sucessivos promovendo quebradeira e morte?

Estivesse o presidente da República de máscara, orientando a todos pelo distanciamento social, estimulando com medidas econômicas a difusão de boas máscaras e de melhorias no transporte público há mais de um ano, estaríamos agora em lockdown? Mais: tivesse nosso presidente adquirido as 70 milhões de doses de vacinas da Pfizer em agosto de 2020, estaríamos agora em lockdown?

Sinceramente eu não sei, mas entendo que muitos dos 312 mil brasileiros mortos ainda poderiam estar ao lado de seus familiares e entes queridos, bem como inúmeras das milhares de empresas falidas de lá para cá poderiam ainda estar mantendo os empregos de brasileiros que hoje passam fome.

Nesta celeuma toda parece haver apenas uma certeza: Jair Bolsonaro e seu comportamento errático, irresponsável e desequilibrado é pois, neste momento, o principal problema econômico e de saúde pública deste país. Cabe, pois, a nós brasileiros tentar resolvê-lo. O quanto antes.

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