Existem perdedores em uma eleição? Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Ao abrirem-se as urnas após o período de votação, começa-se a apuração dos resultados e consequentemente os mesmos são anunciados. No caso da semana passada, acompanhamos o segundo turno das eleições municipais do Brasil. Normalmente dizemos que existem os vencedores, que obtiveram a maioria dos votos, e os perdedores, com a minoria dos votos. Mas isso significa que efetivamente existem perdedores que ao final do pleito são excluídos da política por terem tido menos votos no processo eleitoral? Os vencedores são os únicos representantes do povo pelos próximos 04 anos?

Gosto de analisar a democracia e seus processos baseado nos mais altos padrões que existem, e é importante dizer que tais afirmações estão equivocadas. Uma visão bastante interessante é a do sistema inglês de democracia. Não falo aqui sobre a visão parlamentarista, algo que é bastante diferente da nossa realidade, mas da visão política e sobre a forma de como se enxerga aqueles que disputam os cargos eletivos.

Neste contexto é importante dizer que não existem, baseado em preceitos, vencedores e perdedores dos pleitos eleitorais. A eleição no Reino Unido elege ao mesmo tempo a situação que representa o “governo oficial de Sua Majestade” e elege também a “oposição oficial de Sua Majestade”. Sob o ponto de vista político-filosófico, o mesmo ocorre no Brasil. Elegemos aqueles que serão a situação e representarão o governo da nossa República, seja nas esferas municipais, estaduais ou federal, e elegemos também a oposição ao governo.

O papel desses agentes é muito bem definido. Enquanto os membros da situação devem administrar agências, ministérios, secretarias e demais departamentos que são a representação oficial do governo, é de responsabilidade da oposição, que não tem poderes executivos, fiscalizar as políticas e ações do governo de situação, bem como oferecer políticas alternativas.

Apesar de o papel da situação e o papel da oposição serem iguais aqui e no Reino Unido, talvez o que mais nos difere dos ingleses é a formalidade de como isso é exercido. Por lá, ao serem nomeados os Ministros da Saúde e o Ministro da Educação, entre outros para as mais diversas pastas temáticas, a oposição também tem nomeações do chamado Governo Sombra ou Governo Paralelo em que o líder da oposição nomeia e forma um gabinete paralelo ao governo, no qual seus membros são a “sombra” ou o equivalente de cada integrante do governo; portanto, existe o Ministro Sombra da Educação, o Ministro Sombra da Saúde e os demais que são responsáveis por escrutinar sua contraparte temática que está no papel de situação no governo. Os papéis geralmente se alteram ao longo dos anos quando a oposição vira situação e assim alterando o poder salutarmente.

Dessa maneira, os eleitores conseguem acompanhar com mais assertividade diariamente o papel tanto da situação quanto da oposição sobre suas obrigações, seja para governar ou para fiscalizar, e assim o sistema democrático mostra sua eficácia, a alternância de poder se mostra uma constante e a “coisa pública” efetivamente existe para a visão e a percepção da sociedade.

Esse modelo, mais usual no parlamentarismo, pode ser uma inovação necessária para que os brasileiros ‘acordem’ mais para a política real fora do período de eleições, e não estou falando dessa disputa ideológica em que coisas são julgadas como bom ou mau, como certo ou errado. A real política se faz no dia a dia com debate de ideias práticas para serem ou não implementadas na vida em sociedade, e isso só ocorre quando a população e seus representantes entendem que a eleição é apenas uma pequena parte dos direito e deveres de um povo.

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