Há uma segunda onda da COVID-19 em Fortaleza? Por Antonio Vasques

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Antonio Vasques, doutor em Ciências da Unicamp. Foto: Divulgação

Antonio Vasques
Post convidado

Esclareço, de início, que este artigo é meramente informativo, não científico.

Há muito tempo modelos estatísticos aplicados ao estudo do efeito de endemias, epidemias e pandemias sobre os indivíduos vem sendo elaborados, desde o pioneiro Bernoulli (1766).

É a denominada epidemiologia matemática. O mais popular desses modelos de representação esquemática da realidade é o modelo SIR desenvolvido por Kermack e McKendrick (1927), que classifica os indivíduos em três estados: suscetíveis, infectados e recuperados. Esses três estados são relacionados por meio de equações diferenciais não-lineares. Este modelo vem sendo paulatinamente modificado, com a introdução de outras variáveis.

O conhecimento sobre vírus que periodicamente afetam as populações permite inferir que seguem, quase invariavelmente, um padrão de evolução compatível com uma curva em forma de sino (ver gráfico abaixo). Como fenômeno natural têm começo, meio e um processo infinito de propagação. Infinito, ad eternum, sim, porque uma vez em atividade seu processo de continuidade prossegue, mesmo com o advento de uma vacina. O caso do H1N1 é simbólico: circula entre nós desde 2009 e continuará circulando mesmo com a vacinação anual aplicada.

Quanto mais cedo forem adotadas medidas visando diminuir a taxa de contágio de uma população, mais conhecida com Ro ou taxa de retransmissão interpessoal, menores serão os efeitos causados pelo vírus. Se temos uma determinada taxa de oferta de leitos hospitalares, por exemplo, quanto mais a curva for horizontalizada menores serão os efeitos sobre a infraestrutura básica de saúde.

No gráfico mencionado pode-se notar que uma curva em fase de alta transmissibilidade, verticalizada, conduz ao caos o sistema de saúde, como aconteceu em Fortaleza, principalmente durante os meses de abril e maio.

Por isso é de fundamental importância calcular, durante uma pandemia, diariamente, o valor de Ro. Se está maior do que 1, por exemplo Ro=3, isto implica que cada individuo infecta outros 3 com quem manteve contato sem adoção de medidas de proteção individual. Com o início da pandemia em março, com Ro alcançando valores superiores a 2, em Fortaleza, foi decretado o isolamento social mas com uma falha indesculpável: não foi exigido imediatamente o uso de máscaras pela população. Providência, adotada, tardiamente, somente semanas depois.

Hoje a cidade passa por um momento de aumento da taxa de ocupação das UTIs que hoje, dia 13 de novembro, é de 70,2%. Há poucas semanas atrás este indicador estava girando em torno dos 40%. Há notícia de amigos e familiares contraindo a doença nos últimos dias. Fenômeno característico de R estar maior do que 1. Há grande probabilidade desse aumento de casos estar diretamente ligado às aglomerações devido ao período eleitoral.

Até algumas semanas atrás qualquer cidadão ao acessar o INTEGRASUS, sistema que reúne as informações sobre a Covid 19 no Ceará, podia obter o valor calculado de Ro. Hoje está proibido. Para acessar é exigido um login e senha. Obviamente informações restritas a membros da equipe governamental.

Acessando o Boletim Epidemiológico da Prefeitura de Fortaleza, pode-notar, pelo Gráfico abaixo que a curva de casos segue a tendência de toda pandemia: uma curva em forma de sino, cujo ápice ou pico aconteceu em maio último. No ramo direito da curva, que tende ao infinito, há elevação de casos nas últimas semanas epidemiológicas o que não muda o comportamento real da curva.

Em contrapartida, do dia 30 de outubro até ontem, dia 12 de novembro, os casos vêm diminuindo como está demonstrado nos gráficos apresentados abaixo, que também informam a não ocorrência de óbitos nos últimos quatro dias e de 8 mortos na quinzena de 30 de outubro até ontem.

 

 

O que temos é um aumento da taxa de reprodução do vírus que, temos absoluta certeza, está maior do que 1. Que o Governo do Estado, campeão nacional de transparência em informações sobre a Covid 19, permita acesso aos cálculos de R para tranquilidade da população que fala de uma segunda onda, inapropriadamente.

Toda pandemia tem uma curva que representa o comportamento da evolução do crescimento dos casos virais com forma de um sino, como se fosse um gráfico de Gauss de uma distribuição normal de probabilidades. Conforme os estudiosos de epidemiologia matemática há séculos é este o comportamento dos periódicos fenômenos virais. A onda do Covid 19 em Fortaleza é a mesma, com início em março, ápice em maio e continuidade infinita a partir da descida de seu platô em início de junho. Falar em segunda onda é desconhecer as características desses fenômenos da natureza, periódicos e incessantes.

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