Implicâncias urbanas; Por Lúcio Alcântara

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Por Lúcio Alcântara
Ensaio convidado

No curso de minha longa trajetória na vida pública exerci diversas funções, ocupei diferentes cargos, por nomeação ou eleição, guardando de todos eles grata memória. No executivo e no legislativo, indistintamente, agi em cada um desses lugares com entusiasmo e dedicação no cumprimento das responsabilidades que me competiam.

Quando indagado qual dessas oportunidades mais me satisfez, instintivamente vinha à minha mente o período em que fui Prefeito de Fortaleza. Indicado para o cargo, vi-me diante de um enorme desafio administrativo e político.

Minha experiência vinha sobretudo da passagem pela secretaria de saúde do estado, no âmbito de minha formação profissional, o que parecia pouco para os que admitiam o posto ser mais apropriado para engenheiros, como acontecera no passado. Além disso, políticos preteridos, frustrados, se empenharam em minar minha relação com o Governador Virgílio Távora, de quem tive integral apoio no desempenho da missão que me confiara.

O exercício da função me proporcionou a satisfação da proximidade com o povo e certo poder resolutivo imediato de demandas que me chegavam. Carrego até hoje ecos dessa experiência, muito útil na minha atuação como Deputado Federal e Senador.

O texto que dispõe sobre a política urbana, artigos 182 e 183 da Constituição Federal, incorporou, praticamente na íntegra, proposição de minha autoria apresentada quando Deputado Constituinte. Como cidadão conservo até hoje um certo olhar sobre a cidade, que se encanta com suas belezas e conquistas e sofre com as carências que crescem e se acumulam sem solução.

Prefeito, desenvolvi uma intimidade com Fortaleza que, passados tantos anos, ainda se mantém. Deito um olhar carinhoso sobre a cidade amada e logo identifico os malfeitos que a enfeiam e afetam o usufruto de bens públicos por parte dos cidadãos. Chamo a esses crimes urbanos, pequenos ou grandes, de implicâncias, pelo mal-estar que me provocam. Seguem-se algumas delas que agora me ocorrem:

Cidade de grandes contrastes. Foto: Câmara Municipal de Fortaleza

Cidade cindida
Já na minha época de prefeito, Fortaleza era uma cidade dividida em duas. Uma, formal, onde as leis e normas municipais eram razoavelmente respeitadas e seu cumprimento fiscalizado. Outra, informal, onde a presença do poder público, como regulador e prestador de serviço, era mínima ou inexistente.

Esta última, com o tempo avançou de tal modo que hoje a informalidade domina a maior parte do território, situação agravada pela presença das facções criminosas sucedâneas, na sua ausência, do estado.

Infrações urbanas incontidas ocorrem em bairros consolidados, redutos das classes média e alta, à vista de todos, sem que sejam coibidas. No Meireles e adjacências, construções de grande porte são erguidas sem indicação de destinação, responsáveis técnicos e licenças indispensáveis.

Vias públicas e calçadas são alteradas por particulares a revelia da prefeitura em detrimento do tráfego de veículos e pedestres. As ruas de Fortaleza são em geral estreitas, o que por si só já limita o fluxo de carros; ainda assim há restaurante de categoria em bairro nobre a ocupar, por invasão ou indevida permissão, parte da via com seu mobiliário…

Espaços Públicos
Impressiona a forma como espaços públicos, parques, passeios, praças, são construídos, festivamente inaugurados e rapidamente degradados, às vezes, irreversivelmente, caso do favelizado Parque da Lagoa do Opaia, em geral sucessivamente reconstruídos. Quantas vezes, em cerca de quarenta anos, foi reformada a Avenida Beira-Mar? E o mais recente Parque Rio Branco?

Belos equipamentos, numa concessão estética dos projetistas, são construídos com emprego de materiais impróprios para o uso intensivo, o desleixo dos usuários, a falta de vigilância e manutenção, a ocupação inadequada que resulta no desgaste precoce e até na vandalização dos mesmos.

Aqui é assim, o que é público deveria ser de todos; abandonado, acaba por não ser de ninguém. Os “trailers”, em princípio unidades móveis, estacionados, tornam-se permanentes, focos de lixo, viveiros de ratos e baratas, com pneus vazios ou sem eles.

A atual administração municipal pelo menos removeu a favela que se instalara na orla no trecho de maior afluência turística. Persiste a prática de cessão da área urbanizada para a realização de eventos privados de maior dimensão os quais tiram a vista aos transeuntes e impedem o acesso ao mar o que configura um uso abusivo do bem público.

Não é por sermos pobres que deve ser assim. Basta comparar com o tratamento dado à costa por outras capitais nordestinas.

Os novos prédios
Erguem-se os primeiros edifícios gigantescos liberados pela nova legislação urbanística municipal. Saudados como sinal de progresso e modernidade por alguns, irão certamente afetar a dinâmica da cidade cuja infraestrutura já se encontra sobrecarregada pelo adensamento desproporcional a sua capacidade.

Com os frequentes incêndios em prédios de construção recente será necessário assegurar que o Corpo de Bombeiros disponha de equipagem para atender emergências que venham a surgir nos novos arranha-céus que brotam céleres do solo.

Imagino o futuro incerto desses imóveis atingidos pelos inevitáveis óbices econômicos e de comportamento dos condôminos diante da necessidade de preservar sua integridade. Basta ver o que acontece com as fachadas de edificações modernas de onde se desprendem do revestimento peças de cerâmica que ameaçam inclusive a vida de pessoas.

Escola Jesus Maria José no Centro de Fortaleza completamente degradada e prestes a desmoronar. O prédio foi tombado, mas continua abandonado.

Patrimônio
A Prefeitura se destaca pelo descaso com que trata o tema. Pouco, quase nada, tem feito para preservar o patrimônio edificado e imaterial da cidade. O caso da Escola Jesus Maria José, neste sentido, é emblemático. O lindo prédio, situado ao lado da Igreja do Pequeno Grande, foi desapropriado pela edilidade, e em seguida por ela abandonado, tendo sido invadido e vandalizado, destruído mesmo, numa perda irreparável para Fortaleza. O município se mostrou incapaz de cuidar de um bem que lhe pertence, representativo da arquitetura e história de nossa urbe.

A população das grandes cidades brasileiras é heterogênea por natureza. Malgrado a desigualdade socioeconômica e a diversidade cultural, seus habitantes convivem num mesmo território em parte sujeitos a iguais desafios e oportunidades de desfrutarem dos espaços públicos disponíveis sem discriminação.

A elevada densidade populacional acaba por impor uma certa solidariedade diante da forçosa convivência que atenua a segregação de camadas sociais. Nem por isso a população reage uníssona em defesa da cidade, agredida por uma urbanização sem limites que compromete seus recursos naturais e a torna inóspita.

A cada plano diretor a situação piora e assim ficamos mais distantes de uma cidade sustentável, amiga do meio ambiente. Eventos e imprensa repercutem juras de amor feitas a Fortaleza por políticos, autoridades, intelectuais, professores e profissionais liberais sem que as palavras se transformem em ações efetivas em seu favor.

Reina um silêncio comprometedor que abrange até entidades como o IAB antes zeloso guardião da cidade.

Lúcio Gonçalo de Alcântara, é médico, político e escritor. Foi prefeito de Fortaleza, deputado federal, senador e governador do Ceará. É membro da Academia Cearense de Letras.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

Ciro e Elmano

Focus Poder/Atlas: Ciro lidera, Elmano encosta e diferença cai para 2,6 pontos

Atlas/Focus Poder, Datafolha e Quaest: três pesquisas em campo no Ceará deixam mercado político nervoso

Atlas/Bloomberg: Lula lidera 1º turno, mas entra na eleição com rejeição maior que aprovação

Data centers: Congresso começa a discutir política para setor que já movimenta mais de R$ 380 bilhões no Ceará

MAIS LIDAS DO DIA

Anac limita responsabilização de aéreas por atrasos e cancelamentos causados por força maior

Voto nas Eleições 2026 poderá servir como prova de vida para beneficiários do INSS

Autônomos com CNPJ batem recorde no Brasil, mas representam 27,1% do total

Arrecadação federal cresce 7,12% e chega a R$ 2,019 trilhões até agosto

Mega Feira da Casa Própria mira R$ 50 milhões em negócios e reúne 12 mil imóveis em Fortaleza

Na linha identificada há semanas pela Atlas, Quaest mostra Elmano e Ciro colados na reta final

Quaest coloca Cid, Wagner e Luizianne no mesmo bloco na disputa pelo Senado

STF iguala licença-maternidade e licença-adotante em decisão unânime

Fortaleza se consolida como cenário promissor para criação de startups