Jardim e o vulcão, uma crônica de Angela Barros Leal

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O republicano e antiescravagista Antônio da Silva Jardim.

Desconheço os indicadores, mas deve ser mínimo o número de pessoas a encontrar a morte caindo na cratera de um vulcão. Principalmente por um passo mal calculado. Foram com certeza muitos os vitimados pela lava, pelas pedras em fogo, pelos vapores sulfúricos, como comprovam os mortos de Herculano e Pompeia. Sem esquecer aqueles atirados como sacrifícios humanos para aplacar a ira dos deuses, em antigas civilizações.

Mas assim, despencando por descuido ou curiosidade nas entranhas de um vulcão, desabando quase voluntariamente na fumegante abertura – acho que esses podem ser contados nos dedos. E é brasileiro um desses mártires: o republicano e antiescravagista Antônio da Silva Jardim, nascido no Rio de Janeiro e devorado pelo Vesúvio no dia primeiro de julho de 1891, um mês antes de completar 31 anos.

Juntamente com o amigo Joaquim Carneiro de Mendonça – ligado por parentesco a Roberto Carvalho de Mendonça, que viria a ser interventor do Ceará entre 1931 e 1934 – Silva Jardim estava em Nápoles quando decidiram visitar o vulcão, há treze anos sem erupções. A cavalo e a pé escalaram o terreno até se encontrarem cara a cara com a “guella horrível do monstro, da qual sahía uma enorme columna de fumo e de fogo”, como descreveria depois o amigo, em sofrida mensagem enviada aos jornais.

Arrojado e destemido, como havia sido em suas batalhas políticas, Silva Jardim avançara. “Da terra fumegante era um não terminar de estampidos, como tiros de canhão à mistura com a fuzilaria de atiradores”, recorda Carneiro de Mendonça, que ficara mais atrás, vendo de repente “a terra fender-se em mil gretas”. Em uma das fendas ele próprio caiu, sendo salvo pelo guia, que tivera tempo ainda para testemunhar os últimos momentos de Silva Jardim sobre a Terra. 

Faltando chão sob seus pés o político caíra perpendicularmente para o fundo da cratera. Cheio de pavor o guia vira Silva Jardim fazer “um movimento verdadeiramente estranho: levou as mãos aos ouvidos, tapando as orelhas como quem receia ouvir um grande ruído”. Como era de se esperar em alguém com sua coragem, não fechara os olhos.

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