Luizianne resolveu falar. E falou muito! Por Emanuel Freitas

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A deputada federal, e ex-prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT) resolveu romper o silêncio e concedeu entrevista nesta quinta-feira ao programa Ponto Poder, do grupo Verdes Mares.

Doze anos atrás, após a derrota do seu então candidato à sucessão, Elmano de Freitas (hoje, governador do Ceará), a deputada não apenas mergulharia num silêncio pós-domingo da eleição como só a veríamos na posse de Roberto Claúdio, vestida de preto. Era o luto pela derrota do companheiro.

Agora, a ex-prefeita apareceu e deu uma importante aula de sociologia dos partidos políticos, em muitos momentos ilustrando, talvez sem o saber, pontos das teorias de Robert Michels e Max Weber.

Vestida com seu tradicional vermelho-performático-PT, Luizianne foi anunciada pelos apresentadores Wagner Mendes e Igor Cavalcante como a entrevistada que “quando fala, todos param para escutar, aliados e adversários”. De fato, sempre que Luizianne Lins fala processos políticos são elucidados, ou quase isso.

A começar, uma declaração, em tom de lamento, que ultrapassa a vida de Lins elucida processos políticos desencadeados há poucos meses:

“2024 foi um ano muito forte, sob muitos aspectos, inclusive da minha vida partidária… ano da candidatura do Catanho em Caucaia”.

Sim, tratar de Luizianne é tratar de partido, do Partido dos Trabalhadores no Ceará. E, por isso mesmo, tratar de eleições. Há, em sua vida e em seu lamento pós-eleição muito mais do que uma biografia: há contornos de poder. Ações de concentração de poder. Veremos à frente.

Luizianne não ficou por aí. Continuou:

“Ano definidor de muitas coisas e do que virá”.

Quem viu a entrevista sabe das “muitas coisas” às quais ela se refere; mas, por certo, a maior delas é o desencanto com o PT do Ceará, em geral, e com o agora governador, Elmano, que, podemos inferir, faz parte do que Luizianne caracteriza como “gente que estava conosco há 35 anos desde a entrada no PT, inclusive muitos estavam comigo, dentro do governo” e que protagonizaram “traições jamais imaginadas”, “muita gente que ajudei e na primeira oportunidade se agarraram mais ao poder do que à sua trajetória política”.

Se essas declarações podem ser atribuídas a muitas pessoas, mas com algum grau de certeza elas podem ser vistas como direcionadas a Elmano, a deputada destinou palavras diretas sobre sua relação com o governador:

“Não tenho me sentido representada por algumas coisas que tem acontecido, por composições de governo (…) há um processo de estranhamento (…) não tem isso de rompimento, mas tem muita coisa que vejo que não me reconheço (…) não fui consultada pra nada (…) Camilo que acha que é o grande gestor desse projeto que está aí (…)”.

É isso: Luizianne não se reconhece no governo estadual que ajudou a eleger. Não há diálogo do governo com ela, ex-gestora da capital do estado que Elmano governa, e a ela não resta dúvida das razões para isso: Camilo Santana, aquele que “acha”, e age como, “que é o grande gestor desse projeto que está aí”. Basta ver a tal reforma administrativa levada a cabo nesta semana que chega ao fim.

A entrevista é de pouco mais de uma hora, mas com muitos elementos de compreensão da política local ali postos, inclusive das razões apontadas por ela como de possível produção do surpreendente resultado eleitoral de André Fernandes (PL); comentando isso, num dado momento a (ainda?) petista disse: “A desesperança constrói monstros”.

Retomando o que dizia no início, de uma certa sociologia presente nas declarações de Luizianne.

Primeiro, o diagnóstico sobre o PT:

Segunda ela, seu grupo, o “campo de esquerda”, resolveu se “juntar para preservar o PT”, segundo ela “instrumento de luta da classe trabalhadora, não é uma legenda” . Continuou: “A gente teve um choque com a disputa no PT, nós ficamos estarrecidos […] não tem mais disputa interna. Houve um processo de filiação em massa no PT […] a entrada de uma máquina política dentro do PT que acabou com a disputa interna […] uma máquina política de gente que estava dentro do governo do estado, e o pior, não foi uma coisa natural […] o PT não pode ficar igual a todos os partidos, uma sigla de aluguel […] partido político não é mais a melhor forma […] de se organizar na sociedade e lutar […] é uma instituição que virou um negócio pra muita gente […] grupos que controlam dois ou três partidos”.

Ao tratar do processo que a alijou, internamente, do processo de disputar a indicação do PT para disputar a prefeitura de Fortaleza, em 2024, Luizianne foi a cerne da questão, há muito apontada pela sociologia política: os partidos, uma vez conquistando o poder, passam a representar os interesses de seus membros, não da “causa” (a classe trabalhadora, no caso do PT), sendo a reprodução nos postos de comando a sua ação primordial. Assim, as classes dirigentes do partido passam agir como oligarquias, suplantando interesses da base, sacrificando-os pelo das cúpulas partidárias (Michels), produzindo um sem número de políticos que vivem “da política” (Weber). Com o PT não seria diferente, como há muito aponta a sociologia e a ciência política brasileira – a deputada pode ler o recente trabalho de Celso Rocha de Barros, “PT, uma história”.

Tanto Luizianne tem diante de si os dados, mas parecer não acreditar que o seu PT possa ter sido picado pela mosca azul (lembre-se de Frei Betto a dizer isso ainda no primeiro governo Lula, quando a lôra era nossa prefeita!), que tem posse de dados dessa transformação do partido:

“Já tem uma filiação de 2 mil pessoas programada”, e essa filiação pode afetar os planos, e a reeleição, dos petistas de seu campo político, sufragando nomes do PT do C, o PT de Camilo – ultrapragmático.

Segundo, a análise da eleição:

“[…] no dia do encontro (do PT, que escolheu Evandro) tinha um dossiê […] lideranças cooptadas, promessas de vantagem, tínhamos um dossiê […] o que eu falasse ia intervir. As pessoas não entendem que meu silêncio foi uma colaboração […] Eu estava me sentindo extremamente incomodada, me sentindo mesmo chateada com algumas coisas (engasgo na voz) […] fizeram uma filiação em massa de pessoas que foram levadas àquela filiação que decidiram aquela candidatura […] um sentimento de injustiça pelo que aconteceu, onde eu andava as pessoas falavam […] estranharam o poder que se constituiu para falar em nome do Partido dos Trabalhadores […] Eu não ter dito como foi o processo interno do PT para não respingar e dar um tiro no pé (…) o meu silêncio o tempo todo”.

Além do processo interno do PT, permeado pela lógica das oligarquias partidárias e pela expectativa pragmática de poder, o abandono da candidatura de Catanho, em Caucaia, pelos próprios aliados daqui (já comprometidos, segundo ela, com a gestão de Naumi – “teve muito fogo amigo que tentou desconstruir a candidatura sistematicamente (…) ali não foi fácil, dentro, mesmo, gente que tava minando para não dar certo”) e a não aproximação de Evandro Leitão na montagem do governo (“em nenhum momento houve disposição para conversar […] se não estivermos em algo que possamos construir algo […] que a gente não participe do governo, que não fique responsável pelo que vem”) são outros momentos elucidativos da entrevista,
à qual dirijo o/a leitor/a, uma vez que o texto já se estende por demais.

Nós, pesquisadores e analistas da política estaremos atentos para ver se, contrariamente aos resultados de pesquisas anteriores, o grupo de vereadores do partido do prefeito eleito não tomará parte no banquete do poder – a gestão -, resistindo bravamente ao processo rápido de oligarquização que a sigla vem passando no Ceará.

Emanuel Freitas da Silva é articulista do Focus Poder, professor adjunto de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

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