Mensalão, 20 anos: corrupção, a conta paga (apenas) pelo PT; Por Emanuel Freitas

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Como vimos no texto anterior da série especial do Focus Poder, Mensalão, 20 anos, desde a “entrevista bomba” de Roberto Jefferson à jornalista Renata Lo Prete estava claro que o alvo por excelência das revelações, que constituiriam a narrativa em torno do “esquema do mensalão”, era o Partido dos Trabalhadores e seu modus operandi na relação com aliados.

E, ao menos naquele momento, e em parte das histórias contadas pelo deputado durante depoimentos na CMPI e no Conselho de Ética, ao falar-se de PT estava-se falando, especificamente, de José Dirceu, o então todo poderoso Ministro Chefe da Casa Civil.

Ninguém tinha acesso ao Lula” e “desce daí, Dirceu“, se tornaram declarações repetidas aos momentos pelo petebista.

Se não queria dividir o poder, especialmente o do dinheiro, o partido ficaria sozinho para defender-se das acusações que se fazia a céu aberto.

Capas de revistas semanais, manchetes destacadas diariamente nos jornais impressos, comentários na TV, discursos nas Casas Legislativas e até programas de entretenimento cantavam uma nota só: o PT chegaria ao seu fim.

Reinaldo Azevedo, por exemplo, então crítico ferrenho do PT e das esquerdas, cunhou e popularizou a expressão “petralhas”, misto de petista com “metralhas”, os irmãos ladrões no desenho de Walt Disney. Dois livros foram publicados pelo jornalista: O país dos petralhas 1 e 2.

Naquele momento, e nos anos que se seguiram, uma importante fonte se abriria para aqueles que quisessem faturar, mercadologicamente, explorando o antipetismo, que ali iniciava seus contornos mais precisos (isso será assunto de um outro texto).

Setores do campo jornalístico mais próximos do governo, contudo, passaram a falar de uma “imprensa golpista”, que buscava desestabilizar o governo do “primeiro presidente popular” do país. Essa narrativa, inclusive, estava nos discursos iniciais de Roberto Jefferson.

A oposição, comandada à época pelo PSDB e pelo PFL, dividia-se: os tucanos, FHC à frente, falavam em “deixar o presidente sangrar” até à eleição de 2006, quando derrotariam, até mesmo com FHC, o presidente Lula; o PFL, por sua vez, desejava o impedimento do presidente para que, como disse à época o então senador Jorge Bornhausen, o Brasil se veria “livre dessa raça por no mínimo 30 anos“.

Havia, ainda, a oposição formada pelos quadros do PSOL, que na eleição de 2006 tentaria recuperar o eleitor de esquerda, que ainda se movia em torno da bandeira anticorrupção, por meio da candidatura da senadora Heloisa Helena; ali, alcançou a maior marca de votos do partido numa eleição presidencial, até hoje: 6 milhões de voto.

Durante toda a crise política instalada naquele ano, nomes importantes do petismo tomaram as páginas de jornais impressos, as imagens na TV e os discursos em Brasília. Para citar apenas alguns: Silvio Pereira (secretário-geral), Delúbio Soares (tesoureiro), José Genoíno (presidente nacional), José Dirceu (que viria a ser o primeiro parlamentar do PT a ser cassado) e até Duda Mendonça, responsável pela vitoriosa campanha de Lula em 2002, que assumiria, num dos depoimentos, o fato de ter recebido “caixa 2” naquela ocasião.

“Caixa 2”, a propósito, foi a expressão que ajudou os acusados a deslocarem o vocabulário, e as denúncias, de corrupção via pagamento de mesadas para a hipótese de um crime menor, o de um outro caixa para pagar dívidas dos partidos.

No calor dos acontecimento, José Guimarães, então deputado estadual, viu seu nome nas manchetes quando um assessor seu foi preso no aeroporto ao transportar dólares na cueca e em uma mala. Dali em diante seria conhecido como “o deputado dos dólares na cueca“, como se viu ainda ano passado, durante a campanha eleitoral em Fortaleza, mesmo que nenhuma ligação direta do deputado com o fato tenha sido comprovada.

No ano seguinte, no mês de março, uma cena inusitada veio juntar-se ao já estabelecido lamaçal de denúncia que manchara a imagem do partido: a deputada Angela Guadagnin percorreria o Plenário da Câmara dos Deputados, jpa com a noite avançada, após seu colega de partido, João Magno, ser inocentado no Conselho de Ética. Era a “dança da pizza”, pela qual a deputada pagaria o amargo preço de ser derrota na eleição do ano seguinte.

Um Lula abatido, se dizendo “traído” e assumindo a necessidade de um “pedido de desculpas” do PT à sociedade brasileira seria visto em uma entrevista à Rede Globo, concedida em Paris. Era 12 de agosto de 2005. Lula falava de “práticas” das quais “nunca havia tomado conhecimento“.

O fato é que aquelas crise poria o PT um pouco longe daquele que, até então, era seu tradicional eleitorado: a classe média escolarizada, que se movia em vista do combate à corrupção e à probidade. A partir dali, a imagem do partido seria, nas eleições seguintes, associada por excelência à “corrupção”.

Sobre isso, recomendo a leitura primorosa do livro de Celso Rocha de Barros: PT, uma história, lançado em 2022.

Nas inúmeras manifestações contra o governo de Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016, cartazes com a expressão “corruPTo” se viam aos montes. Com as revelações da Lava Jato e a condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro parecia selada, para parte considerável dos brasileiros, a imagem do partido com a corrupção. Isso sem falar nas eleições presidenciais de 2006, 2010, 2014 e 2018; a primeira, inclusive, contou com o “tempero a mais” do que viria ser nomeado como “escândalo das sanguessugas“, denúncia de super faturamento na compra de ambulâncias, pouco antes do dia da eleição, atingindo em cheio partidos do centrão.

Outros escândalos viriam à tona, em paralelo. Num deles, o “mensalinho” faria o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP) ser derrubado da poderosa cadeira, acusado de receber pagamentos para a renovação de restaurantes que atuavam na Câmara. No calor das denúncias, um embate entre Severino e o deputado Fernando Gabeira entraria para os anais da história política brasileira: o presidente ordenaria que o deputado carioca recolhesse-se às sua “insignificância”.

Eleitoralmente, o mensalão não significou o fim do PT. Em 2006, com a reeleição de Lula (fincada no tripé bolsa família-valorização do salário mínimo-redução do IPI), operou-se o que o cientista político André Singer cunhou como “realinhamento eleitoral“, fundando o “lulismo“: voto dos mais pobres, mobilizados a partir da melhora real de suas vidas com o governo do PT.

O segundo governo de Lula foi o voo de galinha da economia: a super potência “Brazil“, estampada na capa da The Economist.

A marca da corrupção manchou o partido, de fato; passou a funcionar como lugar-comum, e fácil, associar o partido a essa marca. Não produziu, contudo, sua redução à coadjuvante do jogo político nacional.

Impressiona que, hoje, nomes super envolvidos naquela crise hoje posem de vestais da moralidade. Tal é caso de PL (à época PR) e PP, hoje posicionados entre os probos; Valdemar Costa Neto foi condenado e preso por ocasião do escândalo, mas hoje posa ao lado dos que atacam o PT como o “partido do mensalão”. Nomes como Bispo Rodrigues e José Borba, então filiados ao PR (hoje PL) constavam nas listas. Do PP, João Genu, Pedro Henry, Pedro Correa, José Janene figurariam como os nomes da sigla envolvidos.

Naquele contexto, caberia ao então ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, reconstruir o PT, assumindo a presidência.

O partido hoje trata como acusações infundadas tudo o que se viu naquela crise. Nesse ano, durante cerimônia de comemoração dos seus 45 anos, Delúbio e Dirceu foram quase desagravados.

Continuamos no próximo texto. Até lá!

Emanuel Freitas da Silva é articulista do Focus Poder, professor adjunto de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

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