No colo da esperança; Por Angela Barros Leal

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Sabe aqueles dias em que você está com toda a pressa do mundo, dando atenção a quatro assuntos ao mesmo tempo, sendo um deles o envio de um pagamento de valor razoável, usando o pix? Com certeza, em algum Instituto de Pesquisa existe um cientista que já calculou o percentual de chance para que um dos assuntos dê errado. E, muito possivelmente, o que mais está fadado a isso deve ser o envio do pix.

A combinação de números telefônicos, ou de endereços de e-mail, ou ainda de CPF/CNPJ que formam a chave pix nem sempre se configuram fáceis de digitar. Como não fomos criados com as pontas dos dedos tão esguias quanto exige o teclado dos aparelhos celulares, a possibilidade de erro não é desprezível.

Foi isso que me aconteceu uma semana atrás: para realizar um pagamento que tinha como chave o e-mail iniciado pelo nome – digamos – paulohenriquelmn, um ínfimo momento de distração (enquanto eu fazia malabarismos dignos de aplauso com outros três assuntos) me levou a digitar paulohenriquelnm.

E lá se foi o valor que quitaria minha dívida, soprado pelos fios e cabos, e algoritmos e funções matemáticas, velozes e invisíveis, pelos quais desliza nossa comunicação eletrônica.

Ao perceber o engano, não adiantava estender o braço para tentar agarrar de volta os valores. Não adiantou telefonar para o banco e solicitar o cancelamento da transferência. Tanto a voz do gerente bancário, como a voz da atendente para a qual fui encaminhada, soavam como o acenar de lenços brancos na beira do cais, enquanto o navio levantava âncora: despeça-se do seu dinheiro –, era o que eu ouvia na subcorrente da fala de ambos.

Se existe algo hermético é o sistema de proteção desse maravilhoso recurso para transferências financeiras, estabelecido para ser vedado qual um submarino, fechado como uma prisão de segurança máxima, selado com os sete selos do Apocalipse – foi mais ou menos o que me disseram os funcionários do banco, sem usar tantas palavras. Tente recuperar com a pessoa para quem você enviou por engano –, me orientaram mansamente, apontando meu caminho na direção do traiçoeiro colo da Esperança.

Na ausência de alternativas, foi isso o que fiz. Elaborei às pressas um e-mail destinado ao endereço paulohenriquelnm, expondo minha falha, explicando a fatídica troca das letras e pedindo o que pedem os endividados: compreensão, solidariedade, empatia. Enviei um segundo e-mail meia hora depois, esse já tendendo ao desespero, abandonando a compostura que buscara manter na primeira mensagem.

Apelei a Deus e todos os Santos. Implorei com o emoji das mãos postas. Figuradamente ajoelhei-me ao chão, incorporando Maria Madalena. Prometi a pedrohenriquelnm escrever uma crônica sobre o episódio, na qual daria como bom exemplo a pessoa dele, a ser mostrada como uma das derradeiras reservas morais do País.

Uma hora se passou. Duas horas se passaram. Três. No bater da quarta hora, brilhou na tela do meu celular uma mensagem dele, pedindo desculpas pela demora. “Estava verificando em qual banco estava cadastrada essa chave pix” – se desculpava ele, como se precisasse dar alguma justificativa. “Mas consegui identificar, e estarei enviando de volta seu dinheiro!”

Gerúndios à parte, ainda existem pessoas boas e corretas nesse mundo – escrevi de volta, tão logo consegui fechar a boca e retomar o fôlego. É verdade. Ainda existem, e encontrei uma delas. Estamos tão habituados a esperar o pior dos nossos vizinhos que, quando sucede um fato desse tipo, brota o desejo de ouvir soarem os sinos das igrejas, de ver luzes de rojões reluzirem no céu, de reger o clamor de bandas militares, e de agradecer a semente dos bons impulsos que ainda sobrevive dentro de nós.

Só que os dias se passaram. Uma semana se foi, e nenhum sinal do depósito prometido por pedrohenriquelnm. Em compensação, encontrei alguns fatos sobre ele (assim como ele também pode ter encontrado os meus), a partir das informações públicas na internet: seu nome completo (que não interessa revelar), o endereço em Belo Horizonte, e sua titularidade em uma microempresa da qual é ele o único funcionário.

Como sou brasileira, e não desisto nunca, vou continuar aguardando no colo traiçoeiro da Esperança.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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