
A luta para varrer o entulho medieval do bolsonarismo não é uma causa exclusiva da esquerda. Até porque a embocadura ultraliberal do governo, malgrado sua inconsistência programática, é, mesmo assim, sua face menos nociva. Daí que seria pedagógica a presença relevante de candidaturas de centro liberal no espectro de oposição.
Derrotar Bolsonaro nas eleições não é causa ideológica em sentido estrito: é questão de civilidade. Trata-se de recuperar um ambiente de maior tolerância, de estabelecer confrontos com métodos que reflitam respeito aos limites da Democracia e suas premissas, como a independência e equilíbrio entre os poderes — a mais ameaçada.
Para levá-la a efeito, as narrativas das oposições, de matizes diversas, precisam definir suas diferenças em relação ao modelo arcaico bolsonarista não somente na sua dimensão programática, mas também no espaço subjetivo dos valores. Trata-se de voltar a acreditar no esforço paciente de construir convergências no labor artesanal do diálogo.
O episódio amplamente noticiado, em que um agente provocador obteve de Ciro Gomes a reação pretendida — uma virulenta e machista referência a uma senhora que nem estava presente — não produz estragos apenas à sua imagem (até porque seria apenas mais uma xerifada a enriquecer o relicário de destemperos de seu acervo).
O episódio aproxima um candidato expressivo da oposição — por evidentes semelhanças não só de estilo, mas, lamentavelmente, de valores, misóginos — ao que há de mais simbolicamente negativo no adversário a ser vencido. Bolsonaristas já comemoram no pântano de suas redes sociais a revelação dos traços comuns.
De tudo que ainda vem por aí, e será cada vez pior quanto mais difíceis forem as chances do presidente apontadas em pesquisas eleitorais, o que aconteceu com Ciro Gomes em Minas Gerais está no nível Maternal II. Teremos, infelizmente, uma campanha marcada por manobras sórdidas e ameaças, senão de aberta violência.
Muito mais do que nas vezes anteriores, Ciro enfrentará nessa eleição desafios muito maiores à sua celebrada capacidade de controle emocional e seu talento para dissuadir com gentileza as tentativas de carimbar na sua testa o aviso “Eu não tenho nervos para suportar a pressão de um mandato presidencial por quatro anos”.
Calma, homem. Está só começando. O pior ainda está por vir.







