
Por Dimas Oliveira
Especial para o Focus
Sem testemunhas, o encontro entre a vice governadora Izolda Cela e a ex Prefeita Luizianne Lins, nessa semana, dia 21, representou mais um movimento de peças no intrincado jogo de xadrez rumo ao Abolição. Uma senha que indica não apenas a sua preferência, mas que revela ao próprio Governador a sua disposição de influenciar nas eleições.
Detalhe que não pode escapar: o mercado político supõe que o encontro foi articulado pelo deputado federal Idilvan Alencar (PDT), eleito pela base da educação, carro chefe de Izolda, e colega de Luizianne em Brasília.
Para a ex prefeita, o café com a vice governadora não poderia ser servido frio. Compreende que na delicada costura dos arranjos locais entre PT e PDT, o “tempo” da politica não pode ser subestimado, devendo, qualquer que seja o movimento, ocorrer no exato contexto em que podem exercer maior poder e eficácia.
Carregando a marca da discrição, Izolda é tipo raro na política. Surge nos embates públicos com a mesma naturalidade com que realizou seu trabalho na educação. O espetáculo submetido unicamente na afirmação dos resultados, muito mais que na apologia da sua personalidade. Seu prédio, do outro lado do Palacio da abolição não lança sobre este, sombras.
Sobrinha-neta do pintor e gravurista Raimundo Cela, deve parecer a ela no mínimo curioso, vê-lo presente nas dependências mais decisivas de diversas instituições cearenses, sejam elas a sala do Reitor da UFC, do Presidente do BNB, do palácio do Bispo ou do Governador.
Luizianne sabe que seu ato, isoladamente, nada decide. Na sua biografia, os holofotes foram muitas vezes generosos. Mesmo não controlando a máquina partidária, lembra que foi exatamente esse não controle que a constituiu no passado. No palco da politica, com disputas acirradas, lideranças como a dela subjugam, em condições apropriadas, parte do peso das estruturas partidárias.

O GRANDE TESTE DE CAMILO
No Ceará, dois candidatos presidenciais, Lula e Ciro, exigem dos articuladores responsabilidades extras, visando impedir qualquer evolução que coloque em xeque a própria aliança. Quanto mais forte Wagner, o possível candidato Bolsonarista, mais se fortalecem todos os atores que como ela, carregam além de peso eleitoral, força simbólica na identificação com Lula.
Com Wagner, duas tradições distintas foram sintetizadas. Num dos lados da face, repressão e ordem, símbolos caros a direita, na outra, o de líder grevista que se arrisca pelos seus. O motim vendido nas redes sociais com os trajes típicos das greves tradicionais. Exatamente o lugar, por excelência, da própria esquerda. É dessa unidade contraditória que ele retira, exatamente, toda a sua força.
Nesse universo pedregoso, Roberto Cláudio se movimenta com habilidade e cautela , consciente das resistências naturais ao seu nome pela profunda afinidade com Ciro. Nada que a vantagem das inúmeras vitórias nas urnas, inclusive sobre Wagner, não possa equilibrar. Governador, teria a faculdade e oportunidade de cauterizar através da caneta, as feridas que a sua gestão causou ao não contemplar o PT e suas demandas naturais.
No meio do caminho, a decisiva disputa entre Chiquinho Feitosa e Wagner pelo controle do União Brasil. Caso o desfecho seja favorável ao primeiro, o triunvirato responsável pela escolha do próximo candidato poderá impor qualquer nome. Camilo, o maior puxador de votos no Estado, o ex governador Cid e finalmente Ciro.
Lembrado ainda pelo Governador, Evandro Leitão, Presidente da assembleia, conta com apoiadores que enxergam no mesmo características que o habilitam a percorrer os meandros das possíveis indicações. Contando com a capilaridade do parlamento, é dono ainda de uma formação capaz de estabelecer uma narrativa adequada a histórica da gestão pública cearense. O auditor que consegue enxergar e ver além, através das lentes da politica.
Para Camilo esse será o seu maior teste. Como o maior puxador de votos no Estado tornou-se juiz num campo profundamente impactado pelas contradições entre Ciro e Lula. Senador praticamente eleito, é dele a maior responsabilidade de costurar e delinear os arranjos de uma peça que possa vestir a todos.
Dono de características singulares, onde a elegância parece ter sido alçada ao status de programa político, qualidade estranha a esquerda tradicional, realizou um governo tipicamente de esquerda, recusando como poucos a criação de um grupo próprio, aposta sempre alta.
Na politica, ainda o tempo, esse grande cerimonialista que cedo ou tarde deixa a todos nos seus devidos lugares. Hoje, parte do PT é impelida a aceitar qualquer nome decidido pelo triunvirato. Amanhã, no plano nacional e na possível ausência do irmão, Cid estará de mãos dadas com lula. Camilo conta ainda com Guimarães, o incansável construtor do PT, e o próprio Senador Cid Gomes, personagem cuja força e ação deverá ser sempre compreendida como diretamente proporcional a sua aparente ausência.







