O feitiço da Lava Jato se volta contra seus feiticeiros. Por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

“A História é um trauma” – concluiu Carlos Drummond em verso de concisão cirúrgica após a queda do Nazismo. Mas o poeta certamente admitiria que a História por vezes é também irônica. E sobram ironias no episódio da queda de braço entre o Procurador-geral da República Augusto Aras e a geração audaciosa de procuradores que fizeram a Lava Jato acontecer.

Irônico, por exemplo, é constatar que, tendo sido o caudal midiático da operação um fator determinante para a ascensão de Bolsonaro ao poder (uma relação involuntária de causa e efeito que foi explicitada na escolha de seu protagonista, Sérgio Moro, para ministro da Justiça), parta agora do procurador indicado pelo presidente o golpe contra a geração de Curitiba.

Outra ironia, observar a inusitada “frente ampla” formada entre o bolsonarismo raiz (que pretende com isso, a um só tempo, ferir de morte a candidatura Moro 2022 e tornar o ambiente desfavorável às investigações contra a família do presidente) e o Lulismo mais irado, que baba no avental diante da oportunidade de sua vingança triunfal contra aquele que ousou prender seu líder.

Ironia maior é saber que, com sua investida de pugilato, o PGR Augusto Aras provoca frêmitos de felicidade nos políticos profissionais do Centrão, recompensados em parte, com essa providencial blindagem, pelo apoio igualmente providencial que oferecem a Bolsonaro para impedir que siga adiante um processo de impeachment contra ele. No caso, uma mão lava a outra e as duas lavam os pés.

Chega a ser divertido assistir nas redes sociais à perplexidade do eleitorado mais conservador que sente lhe faltar o chão sob os pés ao ver a guerra surda entre sua referência maior de moralidade, Sérgio Moro, e o presidente cujo palácio os recebe em sua rampa para orações e ameaças à democracia todos os domingos.

Em meio a esse cenário de convergência integral dos diversos interesses que abrigam a classe política, de José Dirceu a Flávio Bolsonaro, não custa nada lembrar que, apesar de todos os excessos (alguns deles comprometedores até para a legalidade da operação, há quem diga), pela primeira vez na história deste país se viu gente branca lavando a latrina de suas próprias celas. Devemos isso a eles, de todo modo.

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Ricardo Alcântara é escritor e publicitário

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