O monopartidarismo discreto II

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A hegemonia ideológica do socialismo (em sentido amplo) decorre de um complexo de fatores. O sonho do mundo sem problemas levava os nossos índios, antes da chegada do invasor europeu, a peregrinar em busca de uma “terra sem males”. Utopias evidenciam a força do pensamento mágico. O mal-estar na civilização, descortinado por Freud (1856 – 1939), destaca o desconforto com as limitações da convivência social. Superar limites concebendo o inédito impulsiona o progresso, quando exercitado com realismo e humildade para admitir erros e abandoná-los.

Intelectuais trabalham apenas com ideias. Pisam nos astros distraídos, parafraseando Orestes Barbosa (1893 – 1966). Fertilizam com a fantasia o realismo dos técnicos, provocando a busca de solução para realizar os devaneios da humanidade. Técnicos realizam algumas fantasias e descartam outras. O iluminismo armou-se do cientificismo. Confundiu reflexão intelectual no campo dos fenômenos culturais com ciência da natureza. Os agentes da história não se submetem ao determinismo de leis, como ocorre, por exemplo, com a Física. O positivismo (como algumas vertentes do marxismo), rebento tardio do iluminismo, pensou uma “Física social” que depois chamou “Sociologia”. Leis científicas reúnem condições definidas, conjunto de fatores e resultado determinístico. Os fenômenos sociais não são determinísticos; não ensejam certeza de resultado.

O iluminismo é predominantemente francês. Levou a uma revolução que passou seiscentas mil pessoas na guilhotina (MERQUIOR, José Guilherme in FURET, François; OZOUF, Mona. Dicionário crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989), tudo isso sem uma ciência exata. Acabou coroando um imperador, sendo originariamente republicana.

O prestígio da Cidade Luz e a confusão entre ideologia e ciência revestiram os velhos sonhos e mitos com uma aura de superioridade moral e intelectual. Na França do século XX, nos anos trinta, a Frente Popular (Partido Comunista Francês, Partido Socialista Francês e Partido Radical) opuseram-se ao rearmamento, em nome da paz. Só depois da invasão da URSS o PCF passou a lutar com todo empenho contra a ocupação da França (BEEVOR, Antony. Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Record, 2017). Ganharam, todavia, o epíteto de “partido dos fuzilados” e encheram-se de prestígio.

A influência cultural francesa, depois da derrota na IIGM e do protagonismo dos EUA, declinou. Reagiram os franceses com programas de cooperação cultural. Criaram cursos de pós-graduação para o terceiro mundo, oferecendo facilidades, como se oferece a incapazes. Mas não foi visto assim. Bolsistas faziam curso na França. Voltavam convertidos e prestigiados. Vinham da Cidade Luz, do primeiro mundo. O complexo de vira lata dos brasileiros (Nelson Rodrigues, 1912 – 1980) os via como semideuses. Mestres e doutores em sentido estrito eram animais exóticos, raros ou inexistentes, conforme a área de estudos. Os intelectuais afrancesados ocuparam posições nas universidades e na indústria cultural, muito contribuindo para absoluta hegemonia ideológica do socialismo e ideologias assemelhadas.

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