O múltiplo Bembem

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“Emoldurada por um recorte de avançada urbanidade – um lampião implantado no piso de pedra, uma caixa d’água metálica, uma das entradas do Mercado de Ferro, dois elegantes quiosques e um chafariz de cúpula semelhante aos capacetes militares de Burma – impera na imagem a garapeira do Bembem”.

Um escaninho em minha cabeça era habitado por Francisco Bembem. Dele guardava eu, tirada não sei de onde, a imagem de um senhor rotundo e sorridente (apesar da talvez lacunosa dentadura), de mãos grossas e atarefadas, alvo pacato de brincadeiras e piadas, deixando em seu rastro o cheiro doce da cana de açúcar.

É bem possível que tal concepção tenha sido imposta pelas leituras dos nossos historiadores, por anedotas repetidas aqui e ali, ou mesmo pela incomparável fotografia documental do Engenho Central Bembem, ancorado em local nobre da cidade. 

Emoldurada por um recorte de avançada urbanidade – um lampião implantado no piso de pedra, uma caixa d’água metálica, uma das entradas do Mercado de Ferro, dois elegantes quiosques e um chafariz de cúpula semelhante aos capacetes militares de Burma – impera na imagem a garapeira do Bembem.

Duas dezenas de pessoas posam para a foto, ou apenas observam, curiosas, a atividade do fotógrafo. No meio desse povo todo, dentro de seu local de trabalho como se estivesse à porta de casa, por trás de uma bancada baixa, mão apoiada na cintura, uma toalha ou pano envolvendo a barriga, está o senhor Francisco Bembem. 

De quem vou descobrir, pelos jornais antigos, não ter limitado sua vida a mover manivelas para espremer o caldo da cana. Antes de ser o pioneiro na moagem estilo fastfood, e mesmo durante o período em que exercia tal função, mantinha sociedade com um certo Pachequinho da Jubaia em uma casa de banhos instalada na Avenida Tristão Gonçalves, contribuindo assim para a higiene pública em um tempo em que a água encanada domiciliar se fazia rara ou inexistente.

A “indústria garapal” de Bembem, como brinca o jornal Figarino, encontraria apenas um concorrente, o Moura da Água Fria. A mesma sorte teria ele com a casa de banhos. Disputava mercado tão somente com Francisco Fernandes, que oferecia igual serviço na rua da Misericórdia. Isso tudo no final do século XIX.

Mas é já no século XX que encontro um perfil diversificado do Bembem, traçado pelo colunista Cunha Prata do jornal integralista A Razão. “Decerto nonagenário”, dizia Prata em 1938, “se dedica ele ao fabrico de vinho fortificante de jatobá, e à escultura de estátuas em concreto, tendo em seu atelier, no mesmo local dos antigos banheiros, entre outros o belo vulto de Iracema, em tamanho acima do normal.” 

Não era simples, a produção do vinho, ferida a casca dura do pé de jatobá até ser encontrado o veio do sangue vegetal, e daí aguardar as gotas entre o amarelo e o dourado enchendo devagar as garrafas. Talvez ele o fizesse, talvez pedisse a outro, mas é fato que vendia Bembem esse sumo benéfico para os males da gastrite, da próstata, da cirrose, um passo além das inegáveis qualidades do caldo da cana.

E as esculturas. Quem teria imaginado nele tal pendor artístico, no retorcer das bagas da cana ou na entrega das toalhas na casa de banhos. Bembem misturando ao cimento a areia peneirada em seu atelier, trabalhando com a água até a massa ficar ao ponto, como um bolo a ser saboreado, espalhando o produto ainda maleável sobre o molde, com certeza ciente do limitado poder de comercialização de sua arte, para a qual Cunha Prata pedia o interesse dos abastados moradores da Praia de Iracema.

Descubro assim que se escondia uma alma de artista sob as vestes do industrial e prestador de serviços, uma cabeça criativa que passava das abluções públicas às engenhocas, daí aos dons curativos do jatobá e à produção artesanal da arte em concreto. De roupa nova, Francisco Bembem volta reconfigurado a seu escaninho.

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