O nevoeiro e os navegantes

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Como será o financiamento das campanhas? Como o eleitorado reagirá à desmoralização da vida pública? Não é possível responder com segurança. Espera-se um aumento dos índices de renovação das casas legislativas, que já eram elevados. Mas não se sabe se haverá renovação de atitudes; qual será a influência do poder econômico e do da “máquina” governamental. Temos um nevoeiro com baixa visibilidade.

O Ceará já teve alternância no Poder, sem renovação de condutas. UDN e o PSD se revezavam no Poder. Pequenos partidos eram os fiéis da balança. Cobravam caro. Não em dinheiro. No poder nomeavam os seus eleitores e demitiam os do adversário. Isso configurava uma forma tosca de seguro desemprego. Era temporário. Só durava até o adversário voltar ao poder. Pagava pouco. Não era preciso trabalhar. Tudo como um seguro desemprego. Era distribuído segundo critérios partidários.

Havia oposição porque as empresas não dependiam tanto do aparato estatal. Não havia tanto incentivo ou amparo oficial aos negócios. Nem o Estado era um comprador tão importante. Empresários eram mais independentes. Prefeitos também não tinham tantas formas de cooperação com o Estado ou com a União. Não havia o presidencialismo de cooptação, porque tínhamos menos Estado na economia. O voto rural superava em muito o voto urbano. O camponês vota no “coroné” por lealdade pessoal, por laços de parentesco, amizade ou compadrio, que era uma forma de parentesco ritual. Não havia tanta despesa nas eleições. Além da troca de favores era preciso matar um boi para alimentar os eleitores, gastar algum para transportá-los, já tendo gasto um pouco para qualifica-los na Justiça Eleitoral. Não se gastava com marqueteiro, filmes, aviões ou helicópteros.

Não havendo tantos gastos, não havia tanta extorsão (tecnicamente concussão) nos negócios com o Poder público. Depois de uma vida dedicada à política os homens públicos não iam além da acumulação de algumas aposentadorias. Não ficavam ricos. O casuísmo das obras públicas não era tão prejudicial. Afinal a estrada feita para o aliado político transportava bens para toda a sociedade. O açude fornecia alimento para o mercado, sem distinção. Por tudo isso havia partidos.

Hoje só existe um grande partido: o governista. O favoritismo atrai irresistivelmente. Agora, porém, o favoritismo já não é tão certo. O mundo passa por uma onda de rejeição dos políticos. Surpresas são consideradas. O horror à perda do poder ou dependência das tetas da “viúva”, leva os irreconciliáveis à conciliação. Mas como o eleitor reagirá? A chorosas vítimas do “golpe” farão aliança com os “golpistas”? Já se disse que a política é dinâmica. Mas também que a sabedoria é um bicho que quando cresce demais engole o dono.

O tempo dará todas as respostas e Paulinho da Viola aconselha: “faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar”.

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