
Por Damião Tenório
Post convidado
Vivemos momentos de forte comoção no último dia 19 com o assassinato de dois policiais rodoviários federais, durante o pleno exercício de suas funções, na BR-116, em Fortaleza.
Antônio Wagner Quirino da Silva, de 31 anos, teria cometido esse terrível crime durante um surto psicótico. Sem o acolhimento adequado, o resultado foi o que vivemos naquela quinta-feira. Uma tragédia anunciada em que o algoz era também uma vítima.
O fato dele ter sido visto dias antes perambulando erraticamente pelas ruas reflete as falhas da rede de serviços de atendimento à saúde mental no nosso estado e acende o alerta acerca de um tema sensível e igualmente urgente: o retrato da negligência do poder público com a saúde mental dos cearenses.
Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), cerca de 6 mil cearenses por ano precisam ser afastados do trabalho por questões de saúde mental. Em Fortaleza, segundo dados oficiais (Vigitel), a realidade é ainda mais preocupante vez que uma média de 308 mil pessoas têm diagnóstico de depressão, número maior do que a população diagnosticada com diabetes.
Os dados tornam-se ainda mais inquietantes diante da incapacidade de atendimento no sistema público de saúde e os atuais cortes de orçamento.
A sobrecarga nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) tem levado a meses de espera por uma consulta com psiquiatras nas unidades e, em 2022, já tivemos redução de 59% na dotação da Prefeitura de Fortaleza destinado a área, com diminuição de R$ 1.027.000 para R$ 420 mil.
E todos sabemos que, sem orçamento, não há como desenvolver políticas públicas, ainda mais quando os transtornos mentais da população tendem a crescer.
A realidade anuncia de maneira clara: para o Poder Público local a saúde mental não é prioridade.
Há necessidade urgente de uma rede de apoio preventiva e recuperativa para os pacientes e famílias que enfrentam os desafios dos transtornos mentais.
É preciso dar vez e voz a grande parcela da população que, esquecida e negligenciada pelo Poder Público, encontra-se nas nossas ruas, doente e envolta nos tabus e preconceitos acerca da saúde mental, abandonada como vítimas silentes e algumas vezes sendo levadas a agirem como algozes penitentes.