O STF e o direito premial

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho Rodrigues
rui.martinho@focuspoder.com.br
O direito premial tem sido o fator mais importante no combate à corrupção. A colaboração de réus possibilitou condenações e a recuperação de bilhões de reais. Houve excessos. Alguns réus tiveram benefícios demais. Não faremos o desenvolvimento do Brasil pela via do Direito Penal. Tudo é verdade. Mas não seremos desenvolvidos se permanecermos mergulhados na corrupção. Prisão é coação? Argumento pífio. Toda prisão é coação. Apenas deve ser legítima.
Importamos dos EUA a barganha para obter colaboração dos réus. Lá, porém, as informações dadas pelo colaborador premiado têm valor de testemunho. Aqui de nada valem se não forem corroboradas por outras provas. Mas o que são outras provas? Quem recebe vantagem indevida não assina recibo. A totalidade de informações do conjunto probante deve ter uma lógica verificável de forma análoga à interpretação sistemática dos textos legais. A lógica assim obtida deve ser considerada prova lógico-formal robusta e plena, produzida por meio de ilações rigorosamente lógicas. Sem recibo assinado pelo réu; sem a confissão; e sem a prova lógico-formal (desqualificada como mera ilação), sem o valor de prova testemunhal, a “absolvição por falta de provas” será sempre o resultado. É muito estranho que se desconsidere a lógica do conjunto probante.
Vejamos o absurdo a que nos leva a desqualificação das ilações rigorosamente lógicas. Portar ou guardar dinheiro não é crime. Ter cinquenta e um milhões acomodados em malas não é crime. Correr com quinhentos mil reais em uma mala também não. É ilação concluir que tais somas, quando movimentadas por personagens públicas, evitando operações bancarias, são relacionadas a negócios sujos. Qual seria outra explicação? Concluir que empresários não doam milhões pelos belos olhos de agentes públicos também é ilação. Temos aí provas lógico-formais. Isso, porém, não pode ficar na dependência de quem seja o réu.
STF afastou a eficácia processual das provas lógico-formais e absolveu por falta de provas a senadora Gleisy Hoffmann e o ex-ministro Paulo Bernardo. Sem um recibo assinado pelo agente público que recebeu vantagem a colaboração perde valor. Sem a contraprestação, na forma de favorecimento comprovado, também a colaboração perde valor? Não deveria. Corrupção passiva não exige contraprestação. É crime formal. Tem consumação com o entendimento entre as partes. Não depende da prática do favorecimento e de outro modo não haverá punição para os políticos. Empresários, desde os tempos do Mensalão, têm sido punidos severamente. Políticos, porém, inexplicavelmente, têm um tratamento infinitamente mais brando do que empresários. A velha ideia de que o poder econômico controla o Estado é assim desmentida.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus para presidente no Ceará: Lula amplia vantagem e chega a 60,8%; Flávio tem 28,9%

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

MAIS LIDAS DO DIA

Seminário internacional traz pesquisadores, educadores e agentes de transformação social para Fortaleza

Produção de veículos cresce 10,2% em setembro e atinge melhor resultado para o mês desde 2014

Faturamento da indústria de transformação cai 3,5% em agosto, aponta CNI

UOL: 69 parlamentares eleitos são investigados ou réus por crimes

Nordeste no banco dos réus: 27 milhões de ataques em três dias

Vicente Aquino chega ao BNB em área estratégica — e sob pressão

Siará Tech Summit 2026 começa em Fortaleza reunindo ecossistema de inovação, tecnologia e negócios

Batalha pela cobrança de ingresso para entrar em Jeri: Urbia sofre novo revés na Justiça

Com aplausos, Kátia Abreu expõe incômodo no PT: “Paulistas sem voto” e “menos Janja, mais Alckmin”