O último baile do império. Por Angela Barros Leal

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Comecemos pelo cardápio. De serviço líquido, para atender aos 4 mil convidados (incluindo os intrusos, que burlaram a exigibilidade do convite), foram derramadas em taças de cristal cerca de 12 mil garrafas de vinho, 12 mil de ponche, além de licor, champanhes, cervejas, águas gasosas e minerais.

Para encher os pratos, dispostos sobre mesas posicionadas em forma de ferradura, nas várias salas do prédio em estilo gótico-provençal – como os castelos franceses do século XIV, uma preferência do Imperador Dom Pedro II –, foram sacrificados 18 pavões, 25 suínos, a terem suas cabeças devidamente recheadas, 30 fiambres, 50 peixes, 50 maioneses, 80 perus, uma centena de línguas de boi, 300 galinhas, 350 frangos, mil peças de caça, 10 mil sanduiches.

Na sobremesa, se foram 500 pratos de doces variados e 12 mil sorvetes, refrescando mais um pouco aquela noite de 9 de novembro de 1889, quando se deu o portentoso baile da Ilha Fiscal, na baía da Guanabara.

A data inicialmente aprovada para homenagear os oficiais do vaso de guerra chileno Almirante Cochrane seria 16 de outubro. Os preparativos estavam bem adiantados, porém o agravamento do estado de saúde do Rei Dom Luís I de Portugal, sobrinho de Dom Pedro II, impôs o adiamento para o dia 9 do mês seguinte. Pelo menos é essa a versão oficial.

Assim, todos os acepipes, manjares e iguarias já preparados para aquela data foram destinados ao Hospital de Misericórdia e aos asilos de expostos e de mendicidade. Logo recomeçaria a hecatombe dos animais de terra, ar e mar, bem como o trabalho intenso da centena de cozinheiros e ajudantes, somados ao apoio de 280 criados e valetes de serviço.

O custo de tamanha festança era projetado à estratosfera pelos jornais: só o bufê teria devorado 50 contos de réis. Mais dinheiro ainda iria para outros fins: para o transporte dos convidados, na balsa que os levaria à ilha a partir das 20 horas, retornando entre a meia noite e 2 horas da manhã do dia 10; para a suntuosa decoração ambiente, do piso atapetado às pesadas cortinas; para os imensos espelhos colocados entre as janelas. para as paredes forradas de veludo vermelho, trazendo ao rosto das convidadas o rubor roubado pela novidade da luz elétrica.

Dinheiro para o luxo dessa feérica iluminação, projetando 40 mil luzes sobre todo o espaço da ilha, permitindo ser vista da orla como “um palácio de fadas”. Para a montagem de uma sala de jogos, proibidos em terra. Para as orquestras, entretendo nas danças.

Somando-se tudo, avaliavam os jornais, o Tesouro Imperial teria investido de 200 a 300 contos de réis na homenagem. Atualizando os cálculos, um conto de réis equivaleria hoje a R$ 123 mil (e quem diz isso não sou eu, e sim o expert Diniz Numismática). Fosse esse o valor, ou próximo a esse, a festa alcançaria, hoje, alguns exuberantes milhões de reais.

Ao final dela, voltavam os periódicos a destacar alguns aspectos curiosos, inclusive os objetos deixados para trás, encontrados no dia seguinte pelo pessoal da limpeza. Senhoras e senhores, damas e cavalheiros, esqueceram na minúscula Ilha Fiscal uma infinidade de artigos de uso pessoal, os “despojos”, como ironizavam os jornalistas.

Foram contabilizados travesseiros e almofadinhas (supostamente usados para arredondar a forma das senhoras e senhoritas), raminhos de corpete e corpetes propriamente ditos, lenços de seda, de linho e de cambraia, dragonas oficiais apartadas dos uniformes de seus usuários, chapéus e até indiscretas ligas para meias finas, dando uma ideia da noitada.

Seis dias mais tarde, o Brasil amanhecia Monarquia e deitava-se República.

Fui em busca dessa história por ter lembrado, na aproximação do dia 15 de Novembro, que entre as preciosidades guardadas por meu pai havia um pequeno carnê de baile da Ilha Fiscal. Quem teria dado a ele aquela beleza –, que certamente descansara por muitas décadas “no fundo da gaveta de uma cômoda, jazendo como última recordação dessa deliciosa noite, como um mísero carnet abandonado”, conforme antecipara o jornal fluminense A Estação –, isso nunca soubemos.

Tratava-se de uma espécie de caderneta, menor que um cartão de crédito, com capas em claro marfim. No canto superior esquerdo, uma presilha dourada permitia a ela abrir-se ao modo de um leque. Integrando o conjunto, preso por fino fio dourado, havia um lápis conveniente a dedos delicados.

No topo das páginas, vinham impressas as danças do baile: Walsas, Mazurkas, Polkas. Sob cada título, a dama convidada escrevia, em letra miúda, quais danças estavam reservadas a quem.

Em um de seus impulsos de generosidade, meu pai doou a alguém a referida caderneta que hoje, espero que bem guardada, comemora também seus 135 de existência.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder. Foto: Divulgação

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