OIhos de mulher. Por Angela Barros Leal

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No balcão da padaria o homem à minha frente encontra tempo para conversar com o vendedor. Devem ser amigos, conhecidos de tantas manhãs, repartindo referências em comum. Não há muita gente interessada em ouvi-los. Talvez somente eu, com meus ouvidos indiscretos e olhos dissimulados.

O vendedor se desdobra em dez, campeão de uma olimpíada matinal, sem deixar de lado a conversa com o cliente amigo a lamentar uma goiabeira que havia secado subitamente, uma linda goiabeira de frutos macios, cobiçada por muitos, assaltada durante o dia pela meninada da rua e no meio da noite pelo voo guloso dos morcegos.

Igual àquela nunca vi, garante o comprador, cotovelo apoiado no balcão, a mão no queixo, atenção perdida no rumo dos cestos de pão, avistando, quem sabe, tachos de doces transbordando com a polpa rosa escuro das goiabas perdidas. A árvore pertencia ao condomínio. Oficialmente era propriedade coletiva, plantada na fatia proporcional da área comum repartida entre muitos, porém adotada por ele devido à saudade de pisar em um chão de terra molhada e de sentir o perfume indescritível da fruta.

Tá certo, tá certo, entoa o vendedor, atendendo sozinho ao homem e aos clientes, seu auxiliar desaparecido no interior da padaria. Aquela mulher estava de olho, retoma o homem. Fazia tempo, confirma o vendedor. Pelo que posso entender, enquanto aguardo a minha vez olhando os bolos por detrás dos vidros, há uma história qualquer de inveja e cobiça, planos sinistros tramados em segredo por uma certa mulher, vizinha quem sabe, incapaz de suportar a visão esplendorosa da goiabeira florescendo sem desejar seu mal.

Foi só ela olhar, foi só ela bater o olho na goiabeira, admira-se o homem, impressionado ainda com o poder de fogo dos olhos da mulher, cauterizando a árvore, ferindo de morte seu tronco exposto, sua raiz oculta, devastando folha por folha seus galhos, consumindo semente por semente seus frutos.

Eu tinha um aquário, contribui com a conversa outro freguês curioso, vítima também do cerimonial do mau-olhado. O aquário era grande assim – e abre os braços ao máximo – Rachou de alto a baixo quando uma prima da minha mulher olhou pra ele. Acredito que não se conheçam, as duas, a mulher que matou a goiabeira e sua amiga espiritual, a prima dos olhos de diamante, embora repartam o mesmo poder da inveja e da destruição.

Partir o vidro de alto a baixo, deixando a água se esvair pelo golpe fatal, os peixes nadando em círculos aflitos entre inaudíveis mensagens de socorro, o piso da sala ou do quarto transformado em remansosa lagoa, é desgraça tão grande quanto apunhalar com mirada fatal uma árvore indefesa, filha dos matos e de extintos quintais, produtora de frutos perfumados e sombra rala.

O primeiro homem encara o novo interlocutor, irmanados em dores, tão próximos no sofrimento apesar dos cestos de pão que os separam. Ambos devem beirar os 80 anos. Enquanto colho embalagens de biscoitos lembro de um antigo vizinho, comerciante, do tempo em que existiam casas, que costumava pagar a um mendigo para que viesse a seu portão toda segunda-feira.

Vinha o mendigo cedinho, quase ainda de madrugada, tocava a campainha da casa e era atendido pelo dono recém-desperto, embrulhado em pijamas e superstições. O contrato entre eles se devia justamente a uma dessas crenças: fosse uma mulher a primeira a bater à porta do comerciante, na manhã da segunda-feira, e todos os seus negócios da semana desandariam, estariam arruinados.

Pelo jeito todos eles tinham familiaridade com os poderes do mal, o mal gratuito e inexplicável, em sua essência pura de sofrimento, revelado ou transmitido pela mirada de uma mulher. Ou das mulheres, pois a nós parece pertencer o dom de destruir com o olhar, armamento secreto indisfarçável por detrás das pálpebras traiçoeiras, raio laser sem controle, força atômica ou arma biológica nas mãos de terroristas.

Os três homens me encaram e eu baixo os olhos. Que não venham me acusar de esfriar o pão, azedar o leite nos sacos plásticos, ressecar o sumo do queijo coalho. O padeiro me atende, por fim, um tanto distraído, e diz aos outros dois, cheio de sabedoria, numa inspiração súbita captada no ar: Parece até que vocês não sabem que a Morte só precisa de uma desculpa.

Vou embora absolvida. Quando chego em casa percebo que a Morte, com seus olhos famintos, também é mulher. E, para Ela, nem eu disponho de desculpas.

Angela Barros Leal é jornalista e escritora

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