Os fluxos migratórios

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

 
Imigração provoca efeitos os mais diversos, conforme uma gama de fatores relacionados. O volume de imigrantes, cultura de origem e do país para o qual se dirigem, peculiaridades dos imigrantes, a motivação da imigração, etc. Ondas migratórias massivas, alterando bruscamente a composição demográfica do país para o qual se destinam, causando impacto econômico, social e político, causam problemas, juntamente com a motivação, são fatores que devem ser examinados.
Quando a imigração resulta de fatores de expulsão do país de origem, mais do que da atração pela outra terra, os problemas se agravam. A chamada invasão dos bárbaros, que contribuiu para a queda do já abalado Império Romano, resultou de uma fuga da Ásia central, motivada por uma longa seca. Tanto assim que houve o retorno parcial dos hunos, embora estes fossem vitoriosos no momento do regresso às suas origens. As diferenças culturais, potencializadas pela insatisfação de imigrantes que saíram contrariados de seus países, expulsos por guerras ou fome, quando massiva, provoca choques decorrentes da diversidade de costumes, como acontece atualmente na Europa.
A hostilidade dos anfitriões guarda relação com as diferenças culturais, o volume da imigração, o impacto dos imigrantes sobre os serviços públicos e políticas sociais. O emprego é outra variável importante. Economias em crescimento, com escassez de mão-de-obra, tornam-se receptivas. Recessão e desemprego levam ao desagrado com a imigração, ainda que os reais motivos da falta de trabalho sejam outros. Isso está acontecendo na Europa, nos EUA e agora em Roraima.
O caso de Roraima reúne quase que exclusivamente o volume de imigrantes e o tipo de imigração. O Estado tem 522 mil habitantes (IBGE 2018) e Pacaraima 12.375, recebe 500 imigrantes por dia. Bastam cem dias para termos um aumento de dez por cento da população do Estado e quatro vezes a população da cidade fronteiriça. Culturalmente  não há diferença tão grande entre nacionais e refugiados, mas este tipo de imigrante não passa por nenhuma seleção; não precisam ter idade produtiva ou qualificação profissional e trazem doenças que havíamos erradicado, como o sarampo. Os venezuelanos mais qualificados emigram para os EUA e Espanha, depois para a Argentina, Uruguai e Chile. Brasil e Colômbia recebem os menos favorecidos. Estes são os menos qualificados. Não se dirigem ao nosso país por desejar morar aqui, como o imigrante que se dirigia para os EUA levado pelo “sonho americano”.
Imigrantes são vulneráveis ao recrutamento pelo crime. A imigração italiana fez crescer a criminalidade nos EUA, embora tenha acontecido em condições mais favoráveis. Os nossos serviços públicos já não atendiam a nossa demanda. Têm agora agravadas as suas condições. O noticiário não aborda estes aspectos, nem fala nos motivos da onda migratória: o desastre bolivariano expulsou inclusive as pessoas. Elas aqui chegam insatisfeitas porque saíram contrariadas do seu país, trazendo consigo demandas de saúde desatendidas pelo governo bolivariano. Mais doenças, mais demandas sobre os serviços públicos os precários serviços públicos e mais criminalidade é o que ocorre.
Não podemos deixar de receber refugiados. É preciso que os demais estados repartam o ônus da solidariedade com Roraima. Devemos lembrar que quando os brasileiros forem os refugiados o mundo há de recordar os acontecimentos de agora. A marcha dos acontecimentos torna plausível uma hipótese: a próxima onda de refugiados poderá sair do Brasil. Seremos um número maior e mais difícil de acomodar.

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