Pastel, caldo de cana e um café na tarde nublada; Por Augustino Chaves

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delegado-policia-sao-paulo.jpgO ano era 1988. Pedro Fernandes, Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Redenção havia recebido ofício de intimação da Polícia para depor.

O assunto era uma procissão de pessoas necessitadas a estabelecimentos comerciais, salvar alimentos para os seus, sem a contraprestação do pagamento. No jargão policial: invasão, subversão, ilegalidade.

Um espontâneo ato político da comunidade de duração de somente um dia. Naquela altura da intimação, um ato superado, atrás no tempo. Vivia-se outros cotidianos. A vida havia seguido.

Advogado novato, acompanhei aquela pessoa. Líder popular, uns 55 anos de idade, simultaneamente velho e jovem. Simpático vinte e quatro horas do dia, riso aberto mostrando a alegria de viver e a falta de um dente. Óculos torto ajustado de instante em instante, Pedro Fernandes veio ao teatro da vida viver para valer, de com força, o papel de falante nato. Desenvoltura, falava de essências, gesticulando, ensinando, como se estivesse piscando o olho ao interlocutor, chamando cumplicidade, o Profeta da Redenção.

O delegado não foi gentil (“e se o oceano incendiar…..e se o delegado for gentil”). Nós dois sentados na mais simples das cadeiras. Ele, delegado, sério, grave, passou a maior parte do tempo em pé. Alteava a voz, exigia explicação, perorava o absurdo da invasão, falava para si mesmo, comunismo, colocava um pé em cima da cadeira.

Ao ditar para o escrivão, tentava alterar a versão apresentado pelo depoente. Eu protestava: ao lado daquele homem o jovem advogado se sentia bem. Em perspectiva, anos depois, percebeu a aula a lhe inspirar adiante.

Evidentemente aquele inquérito e aquele dramalhão em nada resultou senão desperdício de serviço público.

Saímos da sede da Polícia deixando aquele delegado para trás. Era por volta das cinco da tarde, à satisfação de um final de tarde nublado, íamos andando, rindo, em direção à rodoviária. Pedro imitava o delegado, caricatura.

Naquele burburinho da nossa singular rodoviária concebida e executada no concreto e na largueza, gente indo e gente chegando, pessoas sozinhas ou acompanhadas, era nosso ambiente, era nosso Ceará, era nosso povo, éramos nós.

Merendamos saboroso pastel ao lado do caldo de cana. Tomamos cafezinho com açúcar. Beleza! Nos despedimos em abraço. Ele voltou à sua Redenção e eu fui para casa.

Carpe diem.

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