Pax cearense, por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Sedição de Juazeiro. Fotografia de 1914. Acervo do Museu do Ceará – Fortaleza, CE, Brasil. Homens de Juazeiro que atacaram o Crato, durante a Sedição de 1914, chefiados por Zé Pedro, Zé Terto e Manoel Chiquinha (à direita, de cavalo).

Talvez por não ter propriamente História, isto é, faltarem-lhe fatos estrondosos, que chamam e fixam a atenção, […] os estudiosos dos anais cearenses, encontrando poucos episódios dramáticos, recolheram pequenos feitos que os anualistas de outros estados comumente desdenham.

Dito isso, dou a você dois pares de aspas, novinhas em folha, para pendurar no começo e no final da frase acima, enunciada pelo ilustre historiador Capistrano de Abreu na Revista do Instituto do Ceará, ano de 1899, transcrita da Revista Brasileira.

Com uma pequena edição copio a frase, espantada. Então a saga de Pero Coelho de Souza, chegado ao Ceará em 1603, hostilizado pelo clima, pela ausência das águas e pela inclemência do areal vitrificado das praias, então o sofrimento de sua caravana, na qual seus próprios filhos morriam a fome e a sede, seria um “pequeno feito”.

Quatro anos depois, a odisseia dos padres Francisco Pinto e Luiz Figueira para atravessar a Serra dos Corvos, hoje região de Uruburetama, vadeando até os joelhos na lama formada pelos aguaceiros, em meio a mata tão fechada que não distinguiam o dia da noite, encontrando na escuridão o que parecia a eles serem “todas as pragas do Brasil”, de cobras e aranhas caranguejeiras a carrapatos e mosquitos, o padre Pinto transfigurando-se em mártir sob a bordoada traiçoeira de um dos indígenas que viera catequizar – então seria isso episódio a se desdenhar.

E o heroico sacrifício dos revolucionários da Confederação do Equador, que levou à sumária execução de Tristão Gonçalves, sua mão amputada para servir de prova às autoridades, seu corpo deixado exposto ao faro e fome dos animais, seus companheiros friamente fuzilados na Praça dos Mártires, todos eles dando a vida por uma causa separatista em 1824, seria também um breve “episódio dramático”.

As secas periódicas e devastadoras, narradas em espanto pelo Barão de Studart, Rodolfo Teófilo e outros que as testemunharam de perto, e seguiram seu rastro avassalador na mistura com o doloroso cortejo das pestes, de casebres a palácios, a tudo isso Capistrano daria de ombros como não sendo “propriamente História”.

Até a nossa honrosa primazia na libertação dos escravos, em março de 1884, após mobilizarmos a elite cultural do estado e criarmos ícones fortes para personalizar o movimento, entre festas e fanfarras, até mesmo esse glorioso evento nada teria, na leitura do impiedoso Capistrano de Abreu, de “fato estrondoso”.

E a afamada Sedição de Juazeiro, logo na segunda década do século XX, unindo jagunços nordestinos, um médico de ambições incuráveis e o Patriarca local na luta para tirar o poder das mãos da oligarquia da capital, isso não seria algo a chamar nem fixar a atenção.

Ora vejam.

Refletindo sobre o pensamento do primoroso pesquisador, pouco preocupado em fazer amigos e mais empenhado em investigar, na companhia de livros e documentos, as entranhas de História do Brasil, desligado das cortesias e salamaleques de seus pares, indiferente como um monge às glórias do mundo, percebo que ele tem suas razões – e quem seria eu a antagonizá-lo.

Fato é que não vivenciamos guerras internas, abertas, sangrentas, dentro de nossas fronteiras. Não contribuímos para a listagem de batalhas e confrontos fratricidas que estudamos na escola – Guerra de Palmares, Farroupilhas, Canudos, Balaiada, Cabanada – olhadas sempre a uma distância segura.

Os episódios que aqui se deram apresentaram-se como versão contida do que aconteceu em outros estados e regiões do território nacional, ou daí derivado. Não modificaram em uma vírgula a narrativa maior dos feitos alcançados pelo País em sua cronologia das datas e fatos, cabendo ao nosso Ceará, com a devida modéstia, eventuais notas de pé de página.

O que não é nada mal.

Dizem que os chineses amaldiçoam adversários com uma frase irônica: Que você viva tempos interessantes. Caso tomemos como ponto de partida a avaliação de Capistrano de Abreu, continuamos abençoadamente desinteressantes.

Angela Barros Leal é escritora e jornalista. Escreve às sextas-feiras no Focus.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

MAIS LIDAS DO DIA

Michelle Bolsonaro é eleita senadora pelo Distrito Federal

Nikolas Ferreira é reeleito e se torna o deputado federal mais votado da história

Erika Hilton é reeleita e se torna a mulher mais votada da história do Brasil

Cid Gomes reeleito: o grande articulador de 2026

Flávio x Lula no 2º turno: 2026 repete 2022, mas com diferenças decisivas

Elmano: uma vida construída passo a passo

Luizianne senadora: a volta por cima de quem nunca saiu do jogo

Veja os governadores eleitos em todos os estados

Sarto repete o fim de Juraci: derrota eleitoral encerra ciclo político