Poder e Palavras, por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Nos últimos anos, a indústria da mídia tradicional, na qual podemos aqui incluir os jornais impressos, as redes de rádio e televisões e as revistas semanais, vem sofrendo uma crise financeira aguda. A mudança no perfil dos anunciantes, que agora buscam estratégias de marketing muito mais digitais e precisas, seja por portais ou por redes sociais, criou um divisor de águas dentro dessa indústria centenária.

Poucos foram os ‘veículos’ que conseguiram evitar a queda brusca no faturamento e o encolhimento de suas atividades, ao migrar para o modelo digital; apesar de muitas dessas empresas ainda possuírem credibilidade e um nome forte, isso não foi suficiente para garantir a sobrevivência de grande parte desses negócios.

Neste contexto, observa-se um movimento interessante e que deve alterar fundamentalmente os grupos de mídia tradicionais ao longo das próximas décadas. Segundo a frase dita por Sir. Francis Bacon, conhecimento é poder, logo não se duvida do poder que esses veículos possuíram ao longo da história, denunciando escândalos de corrupção, retratando revoluções e guerras, e principalmente influenciando o pensamento e os costumes hegemônicos. Neste sentido, podemos adaptar essa frase para uma versão mais atrelada aos atuais momentos de disputas geoeconômicas, ou seja, podemos inferir que, no século XXI, aqueles agentes que são capazes de moldar o conhecimento, são capazes também de moldar o poder, e assim utilizá-lo de acordo com seus interesses.

Dentro da ciência das relações internacionais, uma vertente importante de pensamento, defendida por Robert Keohane, Joseph Nye Jr e Susan Strange, pressupõe a existência do que podemos chamar de Interdependência Complexa, um processo em que diversos agentes, públicos e privados, se organizam em busca de interesses conjuntos. Desta maneira, chegaram ao pressuposto de que agentes que buscam aumentar seu poder conseguem fazê-lo com o aumento dos lucros de suas operações comerciais e vice-versa.

Assim sendo, se conhecimento é poder, no atual contexto podemos inferir que poder também é lucro, logo conhecimento é lucro. Para assentar tais afirmações, a busca para moldar o conhecimento, para ampliar o poder e consequentemente o lucro, vem sendo meticulosamente utilizada por grandes e importantes grupos empresariais em todo o mundo, usando uma estratégia muito similar e baseada na aquisição de grandes grupos de comunicação, que apesar de se mostrarem em dificuldades financeiras, possuem forte credibilidade perante a opinião pública e se tornam importantes ativos dentro de grupos empresariais com vultoso caixa financeiro e buscando no longo prazo moldar o conhecimento da sociedade e expandir seu poder por meio da opinião e do mundo das ideias, para que, no futuro, mercados que sejam de seus interesses, bem como produtos e serviços por eles oferecidos, sejam mais facilmente introduzidos aos consumidores, transformando-se em lucros no futuro.

Talvez o mais claro exemplo seja a compra do jornal The Washington Post pelo grupo Amazon, controlado por Jeff Bezos. O Jornal foi introduzido de maneira digital com grande penetração e preços baixos para toda a cadeia de produtos da linha Kindle e se tornou um elemento político e de debate do grupo. A ‘briga’ do presidente Donald Trump com a China causou efeitos negativos em importantes fornecedores chineses do Amazon, o que afetou a sua competitividade na política de taxas de importação. Dentro deste contexto, o Washington Post vem adotando uma linha editorial contra a política do governo americano e mostrando como ela prejudica a economia nacional com o aumento de preços dos produtos e insumos importados, inclusive dentro dos negócios do seu grupo.

Outros importantes grupos empresariais, que adotaram a aquisição de braços no universo da mídia, foram a família Agnelli, na Itália, maiores acionistas do grupo Fiat FCA, que atualmente possuem a propriedade de jornais como o La Repubblica, o La Stampa e parte da prestigiosa revista inglesa The Economist. Na França, o maior grupo empresarial do país, o LVMH, de propriedade de Bernard Arnault, adquiriu, em 2007, o grupo editorial Les Échos, que incluem portais, revistas e jornais.

Aqui, no Brasil, a situação não poderia ser diferente, o empresário Rubens Menin, proprietário da MRV Engenharia e do Banco Inter, também se aventurou no mundo jornalístico ao lançar, em nosso país, a CNN. Neste contexto, devido a taxas de lucratividade bem mais baixas do que seus atuais empreendimentos, é possível entender esses movimentos como investimentos de longo prazo, que dificilmente irão se pagar apenas nas receitas de publicidade e assinatura, mas terão um efeito muito maior na comercialização futura de produtos e serviços que os grupos empresariais queiram introduzir no mercado no longo prazo, além de lhes conceder um poder político importante dentro de suas nações.

A geoeconomia e a geopolítica se mostram cada dia mais presentes e mais importantes no dia a dia das pessoas e no mercado comercial.

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