Ser ou não ser, eis a questão

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho Rodrigues
rui.martinho@terra.com.br
Tivemos uma eleição. A frente vencedora representa uma autêntica alternância de poder, como há muito não se via no Brasil. Os eleitos enfrentam o desafio de harmonizar as diversas tendências políticas das forças vencedoras. É preciso, ainda, honrar os compromissos de campanha; atender as demandas por reformas e mudanças no campo das práticas políticas. É necessário empreender a reforma política. É indispensável reformar o aparato estatal.
O combate à corrupção e ao banditismo vulgar, se somam ao imperativo de saneamento das contas públicas para desarmar a bomba fiscal, para o que se impõe a reforma da previdência. O poderoso corporativismo e o patrimonialismo são obstáculos difíceis de superar. O apoio do novo Congresso ainda é uma incógnita; a postura do Judiciário, mais precisamente, do STF, dos meios tradicionais de comunicação, das lideranças políticas sobreviventes e emergentes, além da conduta da sociedade brasileira serão fatores de grande importância, mas ainda ocultos sob o manto do futuro.
A vontade manifesta das urnas terá o apoio de todas essas forças ou de algumas delas? Os eleitos saberão conduzir as reformas? Só o tempo sabe a resposta. Deverão as novas forças desafiar os corporativismos e o patrimonialismo, tentando modificar o aparato estatal, equilibrar contas públicas, combater a corrupção e a criminalidade vulgar? Ou deverão lembrar que a política é a arte do possível, atendendo a necessidade pragmática de fazer concessões, escolhendo alguns objetivos e adiando e renunciando a outros?
Quem ousa nem sempre vence, mas quem não ousa jamais realizará os seus objetivos. As mudanças enumeradas envolvem realidades entrelaçadas. O enfrentamento da corrupção e a reforma do aparelho do Estado se vinculam a outras coisas como reforma política, reforma tributária e contas públicas.
Ousar enfrentar tantas forças e obstáculos pode levar ao impasse, a derrota diante das velhas práticas políticas, do patrimonialismo e do corporativismo de sempre. “Quem com muitas pedras bole uma lhe dá na cabeça”, “quem não pode com o pote não pega na rodilha”, conforme parêmias populares. Melhor não ousar? Moderar o apetite reformador? Ou o Brasil, desde as jornadas de junho de 2013, está maduro para mudar, conforme dizem as urnas nas últimas eleições? Quem ousa pode fracassar ou vencer. Quem se dá por vencido sem ousar, todavia, só pode colher um resultado: o fracasso dos próprios sonhos e daqueles a quem representa.
Diante do desafio ciclópico de governar o Brasil em momento tão difícil da nossa história, deve começar resolvendo o dilema da fala que abre um dos monólogos do Hamlet, de uma personagem criada por William Sheakespeare (1564 – 1616): ser ou não ser, eis a questão. O novo governo precisará decidir se quer ser reformador, se veio para fazer diferença, se deve pegar na rodilha porque tem apoio popular para erguer o pote; ou se o limite do possível aconselha optar pelo caminho da conciliação, fazendo pouco para não fazer nada ou ser destituído. Os primeiros passos parecem indicar que a opção é ousar. Resta saber se o novo governo terá a astúcia da raposa para evitar os laços e a força do leão para espantar os lobos, conforme orientação de Nicolau Maquiavel (1469 – 1527).

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