Trocando em miúdos, por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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A direita da esquerda e a esquerda da direita
Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

A insistência de grupos organizados da militância da esquerda em apelidar “de direita” os que se opõem à nova ordem política que aos poucos se vai instalando no Brasil, caracteriza a impertinência de uma designação inadequada.

A construção descosturada da esquerda como movimento político-partidário, em nosso País, não lhe confere autoridade para designar os que se recusam a entrar em suas fileiras como anti-brasileiros “de direita”.

Trata-se de uma nomeação impropria e indevida, tanto no plano teórico quanto em relação ao ativismo público e pela mídia. A menos que queiramos emprestar a insistência reiterada de uma estratégia intencional para caracterizar os que se manifestam contra o governo como agentes anti-sociais de um radicalismo primário.

Não construímos, a rigor, até agora, um movimento “de esquerda” consistente entre nós. As tentações e os impulsos autoritários que se apresentam como voz do povo, com as ideias do marxismo fundador e dos seus intérpretes nas ações vitoriosas do bolchevismo soviético, receberam muitas identificações, no Brasil: “comunismo”, “trabalhismo”, “social-democracia” e, agora, o álibi eleitoral de um “progressismo” que nem os militantes fundamentalistas conseguem provar, em teoria, muito menos na prática.

Com cerca de 32 partidos credenciados, poder-se-ia supor que todas as correntes políticas e o viés ideológico destas praias neles estivessem representadas. Fora os partidos de ocasião, formações de engrenagem, que não se apoiam em
posições políticas e ideológicas, porém nas circunstâncias populistas eleitorais, dois terços desse conjunto constituem variantes de uma central de “esquerda”, sob denominações de fantasia de um largo círculo de alianças em torno de cargos e emendas parlamentares,além do Fundo partidário.

Como, assim, propomo-nos criar outra ficção, de uma “direita-radical”, como foi batizada pela esquerda, pela mídia recompensada e pelos que, na busca de uma bandeira para mostrarem a sua força, aceitam o rótulo de bom grado? Dois motivos serviriam, entretanto, para explicar essa classificação destituída de lógica e bom senso. Ignorância ou má-fé.

Deixemos esta topografia política descansar, não vale a pena insistir na inconsistência das suas reiteradas práticas. São domínios de movimentos sociais, de sindicatos e ONGs, aos milhares, cooptados e acolhidos sob proteção de coletivos com forte atuação na esfera do governo.

Não dá para aceitar este maniqueísmo de ocasião, polarização desvalida de conteúdo político e de motivação alimentada pela práxis suspeita de numerosas greis de ativistas.

Discordar do governo ou de quem foi investido nos poderes do Estado não é razão suficiente, nesta quadra ruidosa de tantos salvacionistas, para receber o anátema de “direita” ou de fascista…

Grande parte dos brasileiros que integram este contingente é de democratas, sem filiação partidária e registro ideológico certo. São pessoas, com níveis variados de qualificação, tipo “povo”, se é que ainda nos lembramos do que significa esta palavra em um sistema político democrático.

Esssa dissidência, de origens diversas, proveniente de setores variados da sociedade, forma uma corrente de opinião plural, parte expressiva da classe média, de pequenos e médios empresários e da gente miúda que sobrevive da economia subterrânea da sua sobrevivência. Aqueles que não entraram para as estatísticas dos agraciados pelos novos empregos e continuam fora da abastança dos programas de eliminação da fome.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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