Um país em desalinho

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Frederico Cortez é advogado, sócio do escritório Cortez&Gonçalves Advogados Associados. Articulista do Focus.jor, escreve quinzenalmente

Por Frederico Cortez
O país parou! Estradas bloqueadas e cidades sitiadas. A população vem acompanhando desde a última sexta-feira (18/05) o desenrolar das ameaças, compartilhadas em aplicativos de mensagens, pelos caminhoneiros acerca do movimento grevista e com os bloqueios nas principais estradas do país a serem executados. 
O governo federal fez “ouvido de mercador” e no sábado (19/05), um dia após o início dessa onda de ameaças pelo país afora, houve mais um aumento nas refinarias, sendo de 0,80% para o diesel e de 1,34% para a gasolina. Apertaram o gatilho! Lição não aprendida no ano de 2013, quando o país teve uma paralização de caminhoneiros em menor escada se comparada com a que está acontecendo atualmente. O poder cega, às vezes!
Para os brasileiros nascidos na década de 90, talvez não tenham conhecimento da greve geral dos controladores de voos ocorrida nos Estados Unidos da América. Isso foi no ano de 1981, sob o governo do presidente Ronald Reagan. No caso, os controladores de voo daquele país fecharam todo o espaço aéreo para aviões de carreira, no intuito de reivindicar por melhores condições de trabalho, maiores salários e redução da jornada para 32 horas semanais.
Assim, muitos devem estar pensando agora que ocorreu o mesmo caos que neste momento estamos provando. Errado! Em 48 horas após o ultimado do governo norte-americano, 80% da frota foi mantida no ar. A solução? Bem, o presidente Reagan convocou operadores aposentados, militares da Força Aérea, deslocou engenheiros de voo para as torres em terra e nomeou controladores em treinamento.
Voltando para as terras tupiniquins, claro que a medida norte-americana não caberia em nosso contexto. Todavia, há um diferencial: organização. 
No caso brasileiro, impossível a qualquer chefe de uma nação análoga não pensar em situações de caos em potencial. Mas ocorreu, pasmem. O Brasil é um país com dimensão continental, que priorizou a via terrestre ao invés da malha ferroviária para escoar seus produtos e riquezas país adentro. Risco assumido.
Constatação fática é que somos fragilmente vulneráveis. Não foi preciso bombas, guerras ou algo mais grave. Tão apenas caminhões parados nas estradas provocaram esse poder devastador para a nação. Agora o governo federal está sentindo na pele a falta de um plano “B”.
De outra banda, inegável a falta de comprometimento por parte dos caminhoneiros, que ainda permanecem paralisados, para com a população em geral. São hospitais, escolas, segurança pública, empresas e indústria que estão sendo castigados, via reflexa toda a população sofre. O governo cedeu até o limite, pediu uma trégua para um estudo mais aprofundado da situação e mesmo assim não teve o mesmo recolhimento por parte dos grevistas. Por enquanto, mantem-se o estado de apreensão de todos nós.
De certo é que não se constrói um diálogo republicano e democrático à base de sofrimento alheio. Isso chama-se chantagem. Gritos de guerra ou vídeos emotivos dos grevistas em nada vai mudar um resultado irreversível desencadeado pelo movimento dos caminhoneiros. A quem caberá essa culpa? Há que se ter responsabilidade, razoabilidade e proporcionalidade até mesmo em momentos críticos. 

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