Verdades e meias-verdades; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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“A gente vai contra a corrente,
Até não poder resistir.
Na volta ao barco é que sente o quanto deixou de cumprir”. “Roda Viva”, Chico Buarque, 1967

Que não se assustem os amigos diante do que poderia ser interpretado como um gesto de entrega ou desistência, uma dessas manifestações “deprês” que um bom scotch ou um analista freudiano não pudesse fazer estancar.

É um sentimento agudo da absoluta impotência das palavras para a recuperação do bom senso por pessoas aparentemente lúcidas e inteligentes, que ainda as há neste mundo, vasto mundo de “Josés” (ou seriam “manés” os remanescentes da indiferença sobre a sorte alheia?).

Não estou a falar do pensamento substantivo que constrói ideias e alimenta divergências e contestações. Refiro-me ao silêncio feito pelo medo e pelas conveniências que emudecem o contraponto de antigos contraditórios permitidos “inter vivos” e animavam certos prélios da inteligência, em voga em outros tempos.

A permissividade da crítica e da dissensão, tínhamos-la como direito adquirido, por conta de alguns insurgentes da Filadélfia, e de filósofos desocupados, useiros e vezeiras de velhas práticas liberais conservadoras, em processo de extinção. Ledo engano. Essa gente sobreviveu até há pouco, até cair-lhes um raio ou um meteoro vagabundo sobre a cabeça como acontecido aos dinossauros — e tirar-lhes as ideias e a vida dentre as famílias da espécie.

Pois bem, a crítica foi um expediente socialmente indesejável, desde os convescotes de Caim e Abel em família, lá pelas paragens do Paraíso. Por aquele tempo, atente-se para o fato, o casal originário dava sobejas provas de comportamento desviante na fundação da humanidade. Não lhes faltavam razão nem prudência para esses juízos sábios, como a história dos homens e os seus feitos maravilhosos indicariam, ao correr dos milênios civilizatórios que estavam por vir.

A dialética foi uma contraposição herética do “Príncipe das Trevas”. As metáforas como as manobras dialéticas trouxeram , com a sua prática aperfeiçoada, os instrumentos da fé e da governabilidade, de cujo poder hoje nos servimos. As utopias, as metáforas e a dialética são parte de um mesmo conjunto de requerimentos pelos quais os homens e as mulheres tornaram a realidade um mecanismo relativo para a explicação da sua vontade.

A força das religiões e do Estado despertou o entendimento do alcance das ideias e do enorme poder de convencimento que poderiam exercer sobre as populações, carecidas de fé e de esclarecimentos. Faltosas de juízos de fato, de juízos de valor e da compreensão para o seu adequado emprego e uso.

Nas rodas, outrora tidas como intelectuais, o dissentimento do juízo comum desejável, incomoda; as pessoas se entreolham vexadas, em busca de quem as tranquilize sobre os rumos que a interlocução poderá seguir, a salvo de interpretações intempestivas. Todas elas buscam a unanimidade como salvo-conduto de um convivência segura. A figura de Guy Montag surge, vigilante, pelas frestas das portas, a impor comedimento às vozes mais recalcitrantes…

Os da minha idade, para não referir “os da minha geração”, sabem como isso acontece e de que modo procuramos nos proteger das armadilhas do entendimento. O olhar e os ouvidos do “receptor” da mensagem, a crer na cuidadosa referência de Barthes, são províncias independentes da formulação original do “emissor”, donde o perigo que as ideias carregam — o da “leitura” de quem ouve ou ler em relação ao ponto de partida da locução.

“Não ponha na minha boca o que eu não falei”, guardo essa resposta de legítima defesa deitada por um “emissor” cauteloso e atento, tantas vezes presenciada em roda de conversa, até mesmo em discussões familiares…

Não admira que a a cultura política brasileira tenha encontrado uma saída eficiente, ainda que solerte em seus propósitos e finalidades, para dissimular a aparência de uma realidade reconstruída.

A mentira hipócrita —- do “politicamente correto” e da “fake news” — é uma forma jeitosa para elidir a mentira, emprestando-lhe a cara respeitosa da verdade… Ou do silêncio cúmplice.

O pior em uma sociedade “aberta” ou que se tenha como tal, não é o silêncio, a falta de opinião ou julgamento próprios. É tê-los e não os poder compartilhar, por medo, temor ou conveniência.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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