A pós-crise e os consumidores, por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Enquanto as pessoas (que podem) estão em isolamento social e as empresas (não essenciais) estão fechadas, estamos vivendo uma espécie de congelamento de várias relações econômicas, pois empresas pagam parte dos salários, protestos em cartórios não podem ser efetivados, empréstimos são alongados ou renegociados e pelo menos pelos próximos 60 dias muitos brasileiros estarão vivendo direta ou indiretamente de benefícios sociais do Governo. Vale ressaltar que a maneira de como a equipe do Ministério da Economia idealizou mecanismos capazes de criar uma rede de proteção para parte da sociedade e para parte das empresas foi bastante eficiente ao “socorrer” até agora cerca de 8 milhões de pessoas que poderiam perder seu emprego ou sua empresa já logo no primeiro mês.

Todavia, sabe-se que quando a economia reagir, e esses programas se encerrarem, o Brasil vai ter três grupos bem distintos de empresas, independentemente dos setores econômicos em que elas operem.

As primeiras serão aquelas falidas, chamadas de ‘CNPJ morto’, que não conseguirão rolar suas dívidas, terão suas receitas drasticamente reduzidas e a demanda de seus clientes estará longe de existir como no início do ano.

As segundas serão aquelas que tinham algum tipo de “fôlego de caixa” e que a demanda retornará mais rápido após a sua reabertura; são empresas que conseguiram negociar e prolongar suas dívidas e que foram capazes de se reestruturar, diminuindo seus custos para que, com muita dificuldade, consigam superar 2020 e possam, em 2021 e 2022, voltar às suas atividades normais com muita luta e dedicação dos seus proprietários empreendedores.

As últimas serão aquelas em menor número, mas que possuem boa administração e estratégias de longo prazo, que foram menos impactadas pela crise seja pela essencialidade do serviço, seja por margens de lucratividade grandes o suficiente para terem vultosas quantias em caixa, podendo suportar meses sem vendas e ainda assim sendo capazes de passar por esta tormenta que é a pandemia da COVID-19.

Tal cenário irá nos mostrar um claro movimento de M&A (fusões e aquisições) em que esse terceiro grupo, que tem acesso a crédito mais barato e fácil, poderá ampliar sua participação nos seus mercados de atuação, seja por um movimento natural para atender aos clientes daquelas empresas que faliram ou por aquisição (ou fusão) daquelas que estão em dificuldade, assim ocorrendo o Capitalism will Go on, uma espécie de seleção natural dos mais fortes, ou darwinismo empresarial.

Para os consumidores, a COVID-19 já provocou efeitos negativos, e, por causa da falência de empresas e dos movimentos de M&A, o Brasil passará por um claro movimento de concentração de mercado em todos os setores econômicos, o que deverá gerar um cenário com menos competição e, em longo prazo, oferta de produtos e serviços mais caros.

Neste sentido, o Governo Federal poderá fazer pouca coisa, pois não se trata de movimentos ilegais ou acordos espúrios, estamos falando de forças de mercado, da mão invisível de Adam Smith e de movimentos da livre economia. Tal efeito não será necessariamente positivo para a população como um todo, visto que a menor competição dentro da economia gera no longo prazo um aumento da concentração de renda e uma menor capacidade de mobilidade social.

Não há muito que possa ser feito para evitar esse movimento, porém isso não será um fato exclusivamente brasileiro. Essa análise de aumento na concentração de mercado será uma consequência global e dificilmente alguma nação não ‘experimentará’ seus efeitos.

Existem soluções para diminuir esses efeitos em um longo prazo? A boa notícia é que a solução existe e não é nova. Será necessário uma volta às ideias do Estado de Bem-Estar Social (Welfere-State) e pensar em como poderemos adaptá-lo ao século XXI.

 

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