A reinvenção do mundo, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

O declínio da natalidade tem se mostrado irreversível, desafiando todas as tentativas de revertê-la. O envelhecimento da população leva ao crescimento de grupos vulneráveis, sobrecarrega a previdência e os serviços de saúde. Os fluxos migratórios, o turismo e as viagens de trabalho cresceram exponencialmente. A concentração humana nas cidades, com a verticalização, elevadores, ônibus, metrôs, ambientes fechados para uso de ar-condicionado aumenta a propagação de doenças. A reivindicação de proteção pelo Estado provedor ganha força. Benefícios sociais têm custos crescentes. O endividamento dos Estados, empresas e consumidores atinge níveis críticos. A carga tributária já não comporta aumento. A revolução tecnológica impõe desafios novos, como o desemprego estrutural, problema ainda não equacionado.

O crescimento econômico da globalização parece ameaçado pela volta do protecionismo, como parte do esforço de reindustrialização dos países desenvolvidos. A guerra econômica entre grandes potências e o fim do equilíbrio de poder entre elas, com a volta da guerra fria e da corrida militar com os gastos ocasionados por ela estão presente. A pós-modernidade fragilizou laços familiares, instituições jurídico-políticas e referências culturais. As redes sociais deram protagonismo a uma parcela crescente da sociedade. A mediação de partidos, sindicatos e imprensa sofre a concorrência daqueles que não tinham tribuna. A mentira deixou de ser monopólio de poucos, foi democratizada. A produção de narrativas escapou ao controle dos grupos ideologicamente hegemônicos. A omnipresença de câmeras, os rastros eletrônicos indeléveis das comunicações e registros eletrônicos, a flexibilidade do sigilo bancário dos paraísos fiscais, decorrente do combate ao crime organizado e ao terrorismo acabaram com o segredo.

Tantas transformações abalaram a participação dos partidos políticos e a representatividade da democracia indireta. A revolução dos costumes despertou a participação do povo simples, que já não aceita o argumento de autoridade dos intelectuais e peritos. O fim do segredo desfez a mística de superioridade moral e de sabedoria dos intelectuais. O fracasso das experiências históricas do discurso de pensadores renomados abriu caminho para a revolta das massas. A conduta resultante disso tudo tem sido a abolição das ritos e formalidades que funcionavam com amortecedor de choque entre atores políticos e instituições. A democratização rebaixou a qualidade intelectual da política em todo o mundo.

A tradição macunaímica torna este processo mais agudo. A institucionalização de regras de combate à corrupção gerou uma crise entre a tradição patrimonialista e clientelista, descrias por Stuar B. Schwartz, na obra “Burocracia e sociedade no Brasil colonial” e por Raymundo Faoro em seu opus magnum “Os donos do Poder” entre outros autores e obras. O choque entre instituições e dirigentes de instituições, acompanhado por intensa participação da sociedade, tornou-se agudo. A política apaixona e divide. A politização partidária da sociedade, inclusive do Judiciário e da imprensa, desencadeou paixões. A passionalidade afasta a razão. Até assuntos técnicos, como farmacologia e infectologia passaram a receber tratamento faccioso.

Crise sanitária, econômica e política, instituições desmoralizadas, população irritada, representação política desacreditada compõem um quadro preocupante. O futuro, porém, sempre sabe a resposta. As dores do parto, porém, são insondáveis. O mundo precisa se reinventar.

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