Ceará em Chicago. Por Angela Barros Leal

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Encontrei, semana passada, a cópia xerox de um livro de breves notas sobre o Ceará, escrito por Thomaz Pompeu de Souza Brasil. Destinava-se a apresentar o estado na Exposição Universal Columbiana de Chicago, em 1893, celebrando os quatro séculos de descobrimento da América. A Exposição anterior acontecera em Paris, quatro anos antes, tendo os mais de 300 metros de altura da Torre Eiffel como atração principal. Cabia a Chicago a responsabilidade de comprovar ao mundo a superioridade dos Estados Unidos.

Se em termos de altura o máximo que a Exposição alcançou foram os 80 e poucos metros de uma roda gigante, em compensação a área ocupada – quatro vezes maior do que a de Paris – e a exuberância no uso da recém-descoberta eletricidade se fizeram os reais destaques. White City, Cidade Branca, foi o nome dado ao local criado para a Exposição, às margens do Lago Michigan, ostentando fontes, estátuas, mirantes e um elaborado jardim, com assinatura do paisagista responsável pelo Central Park de Nova York. Na Exposição estava o Brasil, e lá estávamos nós, do Ceará.

O Brasil participara em feiras e exposições de grande porte desde meados do século XIX, o Imperador Pedro II interessado em mostrar as belezas e o potencial da terra sob seu comando. A Exposição Universal de 1893 não só seria a maior delas até então como seria a primeira a exibir o perfil do novo Brasil republicano.

Os jornais repercutiam notícias antecipando a grandiosidade do evento. Haveria bazares de todas as nações. Seria reproduzida uma rua do Cairo, uma cidade dedicada ao Egito, repleta de múmias e artefatos milenares. Estava a caminho um palácio mourisco, de arabescos dourados e espelhos. Uma vila maori completa, incluindo os humanos que a ocupavam. Dizia-se que uma baleia seria tangida para as águas doces do Lago Michigan. Que seria construída uma estátua de sal da bíblica mulher de Ló, feita com o produto das minas do Kansas. Dizia-se da exibição de uma barra de ouro local, com 225 quilos. Da montagem de um autômato representando Cristóvão Colombo.

Alardeava-se a possibilidade de estarem expostos os ossos de Cleópatra, postos à venda pelo italiano Alex Tagliaferro por 60 mil dólares, e da compra e transporte do Coliseu romano para lá. Cultura, lazer e os “progressos industriais e condições do gênero humano em todos os pontos do mundo” estariam nessa festa projetada para ficar na História.

O Ceará contribuiu com duas centenas de volumes, caixas e mais caixas repletas de objetos e amostras naturais dos municípios, enviadas para a Exposição Preparatória na Capital Federal, onde recebemos elogios (“Ceará salientado pela riqueza e variedade dos produtos”) e críticas (“indústria e artefatos de caráter puramente primitivo”). Do Rio de Janeiro as amostras brasileiras embarcaram para seu destino final.

Levamos o que tínhamos e produzíamos: amostras de granito do Quixadá, mesclados de branco e negro, veios finíssimos de azul fechado. O casulo de uma espécie de bicho da seda. Plantas venenosas e medicinais. Peles de pequenos animais e penas de aves. Pentes, pulseiras e espingardas de casco de tartaruga. Redes “de um luxo asiático”.

E mais: cilhas de couro para selas, de Barbalha, rebenques “made in” Quixeramobim. Trabalhos de agulha, rendas, crivos e bordados. A carnaúba era o carro chefe: chapéus, velas, piteiras, bengalas, capachos e cachimbos, espanadores, abotoaduras e derivados, até mesmo uma escrivaninha completa, tudo seguiu para a Exposição de Chicago.

Milhares de amostras, “diversas e magníficas”, ganharam espaço no pavilhão destinado ao Brasil. O fato de localizar-se em frente ao pavilhão de Illinois, o estado sede, que seria posição estratégica, não mobilizou o público. O jornal A República registra baixo movimento não apenas lá, mas nos demais edifícios da América Latina. Ainda assim o Ceará ganhou 28 prêmios, com destaque para “um punhal de aço finíssimo, aparelhado de ouro e prata, com bainha dos mesmos metais, cravejada de rubis”, produção do Crato.

Mais prêmios poderiam ter vindo caso acatada a sugestão do Tenente Alexandre Leal, engenheiro militar componente da Comissão Nacional, que sugerira na última hora o envio de uma jangada completa, “com todos os apetrechos”, para navegar no Lago Michigan ao lado da gôndola veneziana e da lancha elétrica. Não houve tempo ou interesse. Ficou em aberto o desejo de ter visto a vela de nossa jangada balançando sobre as águas internas norte-americanas.

 

Angela Barros Leal é escritora e jornalista. Escreve às sextas-feiras no Focus.

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