O pioneiro dos museus no Ceará, por Angela Barros Leal

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A notícia: jornal da velha Fortaleza no flagrante do acontecimento ainda no Brasil monárquico.

Junto com a carga de importados trazidos pela barca inglesa Retriever, procedente de Liverpool e desembarcada em Fortaleza em março de 1868, vinha uma caixa destinada ao Dr. Joaquim Antônio Alves Ribeiro, médico da Santa Casa de Misericórdia. De cambulhada com as caixas e barricas ainda úmidas da água do mar, colocadas no chão ou nas estivas, contendo cerveja, ferragens, louça, pólvora, panelas, chá, manteiga ou biscoito, chegavam da longa viagem os animais empalhados adquiridos pelo Dr. Ribeiro para seu Museu de História Natural.

Fortaleza não dispunha de nada que se assemelhasse a esse Museu, inaugurado no dia 24 de julho de 1867, em ponto estratégico para visitação: esquina da rua da Boa Vista, hoje rua Floriano Peixoto, com a travessa Municipal, pertinho da praça central, a meio caminho entre a residência do Dr. Ribeiro, na rua do Conde d’Eu, e seu local de trabalho.

Como eram constantes as exigências de atendimento aos doentes na Santa Casa, o Museu funcionava em horário restrito, entre o meio dia e duas horas da tarde. Cobrava ingresso de 500 réis, “uma espórtula”, valor equivalente a um anúncio de 12 linhas no jornal Pedro II, o suficiente para auxiliar a cobrir “despesas com o estabelecimento e aquisição de novos produtos”.

Do que chegara nas caixas vindas de Liverpool em 1868 não restam os manifestos. O que não me impede de levantar a hipótese da vinda de animais caracteristicamente europeus, talvez uma lebre, um esquilo vermelho, um musaranho, uma raposa dos campos ingleses com seus olhos de vidro. Seriam uma atração a mais no acervo, somando-se ao grande número de peças coletadas há anos pelo Dr. Ribeiro, e ao material que adquiria aqui mesmo, através de anúncio nos jornais.

“O Dr. Ribeiro compra toda espécie de animais, vivos ou mortos, minerais e outras curiosidades naturais”, convidava o anúncio, veiculado nos meses seguintes à abertura do Museu. Convite tentador, em tempos sempre difíceis. A variedade de peças chegadas às mãos do médico incluía o curioso – “moedas de cobre, prata e papel moeda do Paraguai”, o bizarro –“um pinto com dois corpos perfeitos, ligados do pescoço à cabeça, outro com quatro pernas e dois rabos”, e o que hoje classificaríamos como puramente desumano – “o cadáver de uma criança recém nascida, do sexo feminino, tendo de extraordinário um único olho onde devia estar o nariz, que está ausente”.

Em 1871 o Dr. Ribeiro foi convocado para a Corte Imperial. Com a esposa, Adelaide Smith de Vasconcelos Ribeiro, dois filhos e cinco escravos acenaram despedidas no dia 22 de outubro, partindo a bordo do vapor Cruzeiro do Sul. O Museu, que funcionara a contento ao longo de quatro anos, ficou em doação à província do Ceará, que por ele desembolsou apenas o valor das estantes e armários onde eram expostas as coleções. Foi instalado no prédio da Biblioteca Pública, na Praça Marquês de Herval, atualmente Praça José de Alencar, ponto tido como inconveniente por ser “local afastado do Centro”.

Os cuidados se fizeram escassos, nulas as aquisições. E lá se foram, varridos do mapa, os macaquinhos, a guariba e o bicho preguiça, a onça e o gato maracajá, o gambá, o urubu rei e o tamanduá; para o lixo da história voaram o corrupião, o galo da serra do Pará, os rouxinóis e gaviões; mergulharam no abandono o crocodilo, o camaleão, as estrelas do mar, um enorme camarão; não restaram sequer as 560 amostras de rocha, representantes do Reino Mineral. Em 1882, a coleção pacientemente formada pelo Dr. Joaquim Alves Ribeiro reduzira-se a “um montão de coisas”, na seca avaliação do jornal A Constituição.

Esse pioneiro da museologia cearense era definido por seu “caráter circunspecto e grave, maneiras polidas e afáveis”. Havia sido médico da pobreza no Ceará, autor de livros escritos “em linguagem familiar” ensinando os cuidados preventivos e curativos para com a febre amarela, as bexigas, o cólera-morbus epidêmico, além de um Manual da Parteira, ilustrado e impresso na Alemanha.

Editara sozinho o jornal A Lanceta, voltado à medicina, fisiologia, química, farmácia, literatura e notícias, era membro honorário da Sociedade Natural de Frankfurt, além de Capitão Cirurgião-Mor do Comando Superior da Guarda Nacional do Ceará e da Corte. Ao se saber doente viajara para tratamento na Europa. Ao reconhecer os sinais de aproximação da morte escolheu voltar para Fortaleza, onde faleceu vítima da tuberculose no dia 2 de maio de 1875, aos 45 anos. Assim como seu pioneiro Museu, coloco sua figura em meu museu particular de memórias.

Angela Barros Leal é jornalista e escritora. Autora de 18 livros. 

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