Em busca de Mané Coco. Por Angela Barros leal

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Café Java

Pesquisar a vida de um certo Manoel Pereira dos Santos no século XIX é tarefa de incerto fim. Bracejo entre frotas de manoeis, vindos de Portugal sobre mares encapelados. Devasto pomares de pereiras, sem proveito. Volto os olhos a céus estrelados de santos e não vejo sinais dele, do hospedeiro-mor da Padaria Espiritual, do anfitrião que estimulara a criatividade e o humor dos poetas com seus inspirados cafezinhos e espirituosas bebidas.

Aqui e ali, referências nos jornais acenam a possibilidade de tratarem do Manoel que busco, apelidado Manoel Coco ou Mané Coco. Como esse anúncio em jornal de Maranguape, início de 1875. Demorando-se na cidade por alguns meses o Sr. Manoel Pereira dos Santos divulgava seus serviços para “consertos de máquinas, relógios não só de algibeira mas de parede, e caixas de música”. Podia ser procurado “a qualquer hora do dia em Praça do Hotel casa do Sr. Silvano.”

Minha quase certeza se deve a um salto no tempo: quase vinte anos mais tarde, em fins de 1893, um homônimo Manoel inaugurava na rua do General Sampaio “nova agência de seus bonecos elétricos”, fabricados em borracha, tendo embutido um sistema mecânico que lhes dava o dom da voz. Essa arte com certeza não se fazia estranha a quem lidara com mecanismos de relógios, penso eu.

Daí acreditar ser ele também o mesmo Manoel que se apresentaria no Maranhão e estados do Norte no início de 1894, na companhia do eletricista John Peters, arrebanhando e assombrando o público com “o grande invento”, com as conversas, os risos, a música, os sons reproduzidos “pela maravilhosa caixa que guarda tanta coisa”: o phonographo, na intrincada grafia de então.

Sei q estou ziguezagueando no tempo e no espaço e peço paciência. São consequências de um trabalho investigativo descompromissado sobre a elusiva figura desse Manoel há muito extinto. Um tanto de mágico teria ele, acumulando ofícios ou saltando de um a outro com tamanha desenvoltura, de relógios a cafés, de fonógrafos a restaurantes, enveredando até mesmo pela nobre arte da marmoraria.

Essa atividade garanto com segurança dupla. Primeiro, por encontrar o nome dele no Almanaque Administrativo Estatístico Mercantil Industrial e Literário do Estado do Ceará para 1896, trabalhando na rua Formosa, 27. Segundo, por uma brincadeira entre amigos no jornal O Pão, em 1892: “No Java: Leve este café… está detestável! Depois que o Mané Coco deu para marmorista parece que vocês fazem café com pó de mármore!”.

Cafés e restaurantes interessavam mais que tudo ao “popular e incansável Manoel Coco”. Além do Café Central, que vendera em dezembro de 1893 ao Sr. João Freire Napoleão, fora dono do Café Cascata, quiosque de vida efêmera que funcionara em 1890 no Parque da Liberdade; do Estaminet Europeu, pequeno café que servia bebidas alcoólicas, situado na rua Formosa 108-B, hoje Barão do Rio Branco, inaugurado no Natal de 1894; e do Restaurante do Comércio, na rua Major Facundo 67, a partir de maio de 1896.

De todos os seus empreendimentos, o mais duradouro, e que assegurou ao aracatiense lugar de destaque em monografias, teses, livros, como personagem secundário, porém de fundamental apoio, à saga da Padaria Espiritual, foi o Café Java, na altura do encontro das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha, edificação de piso único e telhado de duas águas, emoldurado por um rendilhado de madeira, portas abertas em 23 de junho de 1887.

“No novo e elegante quiosque construído à Praça do Ferreira inaugura-se hoje, às 5 horas da tarde, o Café Java”, divulgava o proprietário, assinando embaixo. Tratava-se de “um kiosque muito chik”, antecipava o jornal Libertador. Tudo era “preparado com esmero, de modo a corresponder às exigências do respeitável público, pelo bom gosto, comodidade, asseio e prontidão do serviço, feito a capricho”. O anúncio findava com uma exortação do bravo Manoel aos fortalezenses: “Ao Café Java!”

Logo se transformaria no “grande rendez-vous” da terra, no “point” da boemia e da intelectualidade local, referenciado como local para apuração de votos de clubes carnavalescos, para entrega de correspondência, para idealização de academias e grupos literários, e para os noctívagos da pequena cidade que não se condoíam de ver à porta o popular Manoel, “com a cara bocejante e amarrotada de quem passara a noite em claro”, enquanto o aroma do café recém passado reacendia a lida de mais uma manhã.

Após 1892, tendo a Padaria Espiritual feito “ponto de reduto daquele popularíssimo estabelecimento”, Mané Coco ganharia merecida sobrevivência como mais um desses ilustres desconhecidos de nossa História cultural.

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

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