A lição dos talibãs. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Cem mil talibãs venceram trezentos um exército de trezentos mil que tinha armamento superior. Não foi por apoio popular. A vitória deles causou pavor. Os vencedores sobreviveram por vinte anos desafiando os EUA e a OTAN. Já haviam combatido por nove anos, e derrotado, os soviéticos. Em ambas as ocasiões os vencidos eram mais fortes.

A combatividade dos afegãos é histórica. Sim, mas não é só isso. Não são guerreiros geneticamente superiores. O Afeganistão é constituído por grupos étnicos. A maioria é de pashtuns (40%); mas existem tajiques (33%); hazaras (de 10 a 15%) e usbeques (11%), com línguas diferentes e tendo afinidade cultural com países vizinhos de relações difíceis entre si. A convivência entre as etnias não é fácil. A sociedade é tribal, o que enseja conflitos dentro das etnias. Existe a rivalidade confessional entre xiitas e sunitas. O conjunto é difícil de coordenar.

O terreno montanhoso facilita a resistência. Altitudes elevadas restringem o desempenho de helicópteros, importantes instrumentos de guerra. A dificuldade logística local e a distância colaboram com a resistência. Mas Gengis Khan, sem dispor dos meios da guerra moderna, ocupou o país e o governou durante o séc. XIII. Alexandre, o Grande, invadiu o Afeganistão e fundou duas cidades que até hoje estão lá. O “cemitério dos impérios” não é inexpugnável. Mongóis e gregos não foram derrotados. Retiraram-se não só em razão da resistência local. Árabes dominaram o Afeganistão por tempo suficiente para impor a religião.

Os soviéticos não foram militarmente vencidos. Saíram porque o regime estava sendo derrotado em casa pela corrupção e a ineficiência econômica do planejamento centralizado. Também a falta de preços livres desorientou a economia soviética (F. Hayek, 1899 – 1992). Os EUA estão divididos. A visão segundo a qual a prosperidade americana resulta da exploração de terceiros países e dos EUA como uma sociedade injusta está muito forte nos EUA, apesar do padrão de vida dos americanos ser bastante elevado; o nível de emprego quase sempre ser bom; as liberdades e as minorias serem protegidas. Os problemas existentes não chegam a desestimular a imigração. Os imigrantes já instalados trazem parentes e convidam amigos.

Carl Clausewitz (1778 – 1831) entendia a guerra como a continuação da política por outros meios. A decisão de solucionar impasses na gestão da coisa pública usando a argumentação racional semeou a democracia na Grécia (Olivier Nay, 1968 – viva, “História das ideias políticas”). A força era a regra até então. Logo, a política foi a continuidade da guerra por outros meios, o inverso do pensamento de Clausewitz.

Vernon Walters (1917 – 2002) disse que o Vietnã foi uma derrota imposta pela TV americana, mostrando crianças mutiladas na hora do almoço; a maconha dos soldados; a volta dos militares feridos pela segunda vez; o prazo de um ano para trazê-los de volta. Certos alvos só podiam ser bombardeados com autorização da Casa Branca, mas já não era oportuno atacá-los quando a autorização chegava. Decisões políticas, guerra por outros meios.

Arnold Toynbee (1889 – 1975) ressaltou os problemas internos na queda dos impérios. A guerra continuada por outros meios (política) é principalmente interna. Antonio Gramsci (1891 – 1937) falou das lutas políticas como guerra. Usou as metáforas guerra de movimento (assalto ao poder); e guerra de trincheiras (conquista cultural gradual). Guerra por outros meios, nas democracias, é política suicida. Por isso perde para inimigos mal armados e impopulares.

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