O Cassino que o Ceará quase teve. Parte 2. Por Angela Barros Leal

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Em parte, a proclamação da República foi responsável pela não existência do nosso Cassino. Causara uma debandada geográfica no núcleo militar até então no comando da associação, levando os acionistas a suspender os pagamentos mensais. Silenciados os aplausos da festa de inauguração do salão central o Cassino entrou em colapso.

Cerca de um ano depois da inauguração parcial, a revista Primeiro de Maio, da Escola Militar, em maio de 1891 condenava “aquele casarão que se destaca no segundo plano do Passeio Público, vulto sombrio que, além de ser uma nota discordante ao pitoresco do parque, pertence também à categoria dos trambolhos, pois que não nos deixa descortinar magnífica extensão de mar esverdeado e um pedaço da abóbada celeste, de azul diáfano”.

Os estudantes romantizavam o esqueleto em escombros, “casa oitavada, esquecida ao tempo e suas intempéries, entregue à mercê dos roedores e répteis”, sua extensa e pardacenta estrutura dificultando “os idílios que reclamavam expansões de olhares investigadores de horizontes ilimitados”.

Os padeiros da Padaria Espiritual faziam coro no segundo número do jornal “O Pão”: “Em cumprimento ao artigo XL do nosso Programa”, anunciavam eles em julho de 1892, “vimos hoje levantar brado de guerra contra o Cassino, esse casarão lúgubre que afeia e entristece o segundo plano do Passeio Público”. O artigo enunciava: “A Padaria desde já declara guerra de morte contra o bendegó do Cassino”. O nome “bendegó”, da cidade onde caiu imenso meteorito, representava algo descomunal. Na mesma veia prosseguiam: “Aquilo certamente está cheio de almas de outro mundo, encarnadas no pelo repugnante de alguns morcegos sinistros”.

Em 1892 o Cassino se fez Lázaro e ressuscitou brevemente como central para depósito e exibição dos produtos que iriam à Exposição Colombiana de Chicago, a acontecer no ano seguinte. O que em nada afetou o ruidoso rancor dos padeiros, impregnados de literatura estrangeira, sentindo no edifício a fatalidade de ser “uma dessas casas predestinadas ao abandono”, dotada de “maléfica influência”, trazendo ao espírito “a lembrança das casas misteriosas onde se reuniam as sociedades secretas dos romances de Ponson”.

Não mediam palavras quando se tratava de dar a partida a movimentos efetivos contra o pobre Cassino, “uma excrescência que precisa ser extirpada”. Propunham a realização de um auto-de-fé, amontoando no meio do forno da Padaria a pilha de papeis das ações inúteis, banhando-as em querosene e incinerando-as ao riscar de um fósforo. Em seguida, que se armassem todos com enxadões e picaretas e, entoando a Marselhesa, se encaminhassem ao local do Cassino para “meter a mão à obra”.

Uns irreverentes, esses padeiros. Quando não restasse pedra sobre pedra iriam ao Governador solicitar que incluísse aquele dia no rol dos feriados estaduais: a Queda do Cassino, assim como a França fizera com a Queda da Bastilha… De certa forma o ato era reação à ideia proposta pela diretoria do Cassino, de vender o edifício para vir a ser transformado em Biblioteca Pública. “Atirem os livros dentro daquela baiúca e dentro em pouco o mofo e a traça terão dado cabo de todos eles”, enfureciam-se os ardentes leitores.

Nenhum deles foi além das palavras. O tiro de misericórdia contra o Cassino não veio dos estudantes, nem dos escritores, mas do major João Brígido, que em abril de 1893 contratou advogado para reaver o que desembolsara como acionista, apresentando razões mui concretas para a liquidação da sociedade.

A empresa estava sem direção há mais de dois anos. A parte central da casa, “erguida com indevida sofreguidão,” não chegara a ser concluída. E, antes e acima de tudo, encontrava-se ela em terreno “de domínio público, dentro das cercas do Passeio Público, administrado e dominado pela entidade municipal, que não tinha dado concessão nem licença para edificar!”. O ponto de exclamação consta da petição do advogado.

Embora o artigo 2º dos Estatutos da associação Cassino registrasse que a sede própria seria construída “em terreno cedido pela Câmara Municipal”, passando a pertencer à dita Câmara, como donativo, após doze anos, nada disso havia sido documentado em papel. A queixa de Brígido foi o golpe final. Em junho de 1894 o Cidadão Intendente, ou seja, o prefeito Guilherme Rocha, ordenava a arrematação em hasta pública “dos materiais de alvenaria do Cassino, cujas paredes ainda se acham levantadas, obrigando-se o arrematante a demoli-las imediatamente.” E assim desapareceu o nosso Cassino que quase chegou a existir.

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

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