A força oculta de Jordânia. Por Angela Barros Leal

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Assim que desceu do carro, na garagem subterrânea, Jordânia sentiu cheiro de fumaça. Descartou como mais um entre os cheiros rotineiros da cidade, entrou no elevador e subiu até o quarto andar. Esperou que a cuidadora da sua paciente prendesse na varanda a cachorrinha feroz, e deu início à sessão de fisioterapia, interrompida por uma breve ligação do porteiro, no interfone, perguntando se havia algo queimando no apartamento.

Quando o alarme de incêndio soou, Jordânia entendeu de imediato o que se passava. Sozinhas, ela, tão miúda, e a cuidadora, não teriam condições de remover a paciente, gravemente comprometida em seus movimentos. E não podiam esquecer a cachorrinha. 

Pediu à cuidadora que preparasse a paciente para ser retirada do leito, apanhou a bolsa, o celular e a chave do carro, e juntou-se na escada aos moradores que desciam dos andares mais altos do prédio, assustados, correndo e escorregando no aguaceiro provocado pelos sprinklers colocados no teto.

Foi informada que o incêndio era no quinto andar, logo acima do piso onde estava. Já em segurança, na calçada, o instinto primal de sobrevivência entoou seu brevíssimo discurso na cabeça da fisioterapeuta: e se transferisse a responsabilidade do resgate ao porteiro… O pensamento sumiu assim que nasceu. Ao avistar o zelador, no aglomerado de pessoas, Jordânia puxou-o pela camisa e subiram correndo, na contramão dos que chegavam.

A porta do apartamento se encontrava aberta. Fumaça escura e de cheiro forte já atingia o hall de entrada. Um morador que descia as escadas atendeu ao pedido de Jordânia e juntou-se a eles, para posicionar a senhora na cadeira de rodas.  A descida foi uma luta. A cadeira veio devagar pelos degraus, de ré, um homem de costas para a descida, o outro sustentando pela frente, a paciente amparada pela fisioterapeuta, para não escorregar, e a cuidadora fechando o cortejo, com a cachorrinha ao colo, mansa pelo medo. 

Era uma manhã de muito vento, e do lado de fora é que viram a intensidade das chamas, subindo pelas janelas até o oitavo andar. Jordânia rasgara o jaleco, e trazia um lençol enroscado em volta do pescoço, sem nem entender como tinha ido parar lá. Com o lençol cobriu a paciente, para resguardá-la da ventania, e com as mãos cobriu os ouvidos dela, para amenizar o som das sirenes dos bombeiros se aproximando. 

A preocupação era protegê-la de toda maneira. Só sossegou quando um escritório ao lado disponibilizou um espaço seguro, como abrigo temporário para aguardar os familiares da paciente, voltando às pressas de seus trabalhos.

Com os bombeiros haviam chegado os jornalistas. E o marido da fisioterapeuta a viu na televisão de casa, andando em meio ao alvoroço de moradores, vizinhos e curiosos. Venha para casa, ele ordenou aflito, ao celular, mas ela não se mexeu. 

Os bombeiros isolaram a área e impediram a entrada. Ela, os dois homens, a paciente e a cuidadora tinham sido os últimos a sair do edifício. Os parentes da senhora chegaram. Jordânia conseguiu enfim respirar. Havia cumprido sua missão. Como o carro estava na garagem interditada, ela chamou um uber e voltou para casa.

Pergunto a ela se estava se sentindo uma heroína, organizando tão rápido uma equipe de salvamento, sem o treinamento nem os recursos necessários para enfrentar os riscos de um prédio em chamas, em meio a coisas que explodem, desabam, asfixiam. Não, ela responde tranquila. E me diz as seguintes palavras, que anotei porque parecem ter sido tiradas de um livro sagrado: “Só posso render graças a Deus pela força das minhas pernas, pela força dos meus braços, por minha disposição interna em ajudar, por minha docilidade aos desígnios de Deus.”

Está abalada, porque nada semelhante acontecera antes, em sua longa carreira de fisioterapeuta. Mas sabe que vai passar, que sua paciente se encontra bem, e que o dia seguinte é dia de trabalho. 

Integrei Jordânia à minha galeria particular de Heróis e Heroínas do dia a dia, pessoas comuns que conseguem transcender ao que é humanamente esperado delas, e que não costumam ser reconhecidas como merecem – embora cumpram com o imperativo kantiano: “Agir de tal modo que a sua ação possa se erigir como máxima universal”. 

E acrescento um detalhe: a força oculta de Jordânia se mostrou no dia 8 de março. Não poderia haver uma celebração mais honrosa para o Dia da Mulher.

 

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