O silêncio que fala; Por Emanuel Teles

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Era uma tarde nublada no Rio de Janeiro quando combinei de encontrar um amigo na Livraria Travessa, no Leblon. Cheguei sem pressa, despretensioso, como quem busca nada e encontra tudo. A livraria, com suas prateleiras abarrotadas de histórias, parecia sussurrar promessas silenciosas de mundos a serem descobertos. Minha esposa e eu estávamos juntos, e o mesmo acontecia com ele e sua esposa. Logo as duas engataram uma conversa animada, enquanto eu descia as escadas à procura do meu amigo.

Ele apareceu, como sempre, com aquele ar de quem pertence mais aos livros do que ao mundo ao seu redor. É uma das pessoas mais cultas que conheço, um verdadeiro viajante das palavras, carregando consigo a sabedoria acumulada de inúmeras leituras. A livraria parecia um cômodo de sua casa, onde ele transitava com a intimidade de quem dialoga com velhos amigos. Ao me ver, abriu um sorriso e disse: “Querido amigo, já tomou café?”, seguido de uma risada calorosa.

Entre uma palavra e outra, ele recolhia livros. E quando nos despedimos da livraria rumo ao nosso almoço, surpreendeu-me com um presente: um exemplar recém lançado de “Dedico a Você o Meu Silêncio”, de Mario Vargas Llosa. Não tinha lido ainda, mas foi efusivo ao falar do autor. “É o melhor da América Latina”, disse. O livro era, segundo ele, a última obra do mestre peruano. Foi tudo novidade para mim.

O fim de semana seguiu com a serenidade que os dias tranquilos oferecem: banho de mar, boa comida, lençóis limpos, a companhia da mulher amada. Mas como tudo na vida, acabou, e voltei à rotina. Foi então que comecei a ler o livro. No início, confesso, não achei nada demais. Parecia uma história simples: um professor de folclore peruano apaixonado por música, que se encanta por um músico anônimo, gênio da valsa peruana, cujo talento é interrompido por uma morte precoce.

A história se desenrola enquanto o professor tenta compreender a profundidade de uma frase dita pelo músico à namorada antes de morrer: “Dedico a você o meu silêncio.”

Com a vida atribulada, interrompi a leitura. Trabalho, família, notícias sobre redes sociais, liberdade de expressão, guerras distantes… A humanidade caminhando como sempre, enquanto eu seguia lutando com os próprios desafios. Mas uma enfermidade me obrigou a pausar tudo, e, em um domingo, decidi retomar o livro. Dessa vez, não larguei até o fim.

E que fim! Vargas Llosa, com sua habilidade de narrar o íntimo e o grandioso, me levou a conhecer não apenas o Peru, mas sua essência, sua história, suas dores e suas glórias. O livro fala da tentativa de compreender a própria identidade, um esforço do professor-personagem que, em sua jornada, também escreve um livro.

A obra começa como uma celebração à valsa peruana, mas acaba se
transformando em um manifesto sobre o Peru e a humanidade. Com o tempo, o livro do professor-personagem cresce, ganha complexidade, mas perde público.

Para ele, não importa. Ele escreveu o que precisava, um esforço para unir um povo, mesmo sabendo que a tarefa não seria sua, mas das gerações futuras.

Ao terminar a leitura, fiquei com a sensação de ter compartilhado um café com Vargas Llosa em um canto de Lima. Suas reflexões ecoaram em mim, e entendi o que meu amigo quis dizer sobre a grandeza do autor.

Llosa, com sua escrita, nos faz olhar para o Peru não como o antigo lar do Império Inca ou o país de um nome natalino, mas como um povo complexo, cheio de esperança e luta, não muito diferente de nós, brasileiros.

E foi inevitável pensar em nossa própria história. Llosa menciona que os incas tinham medo da palavra. Para eles, o poder estava nos números que são os nós de cordas que hoje tentamos decifrar, nada passam de números de estoques da administração estatal. Não deixaram registros que cantassem sua humanidade.

Não podemos repetir esse erro. Em tempos em que a liberdade de expressão é colocada em xeque, é vital lembrar: silenciar um povo é apagar sua identidade. Como o professor de Llosa, talvez nossa tarefa seja dar voz, mesmo que nossas palavras sejam criticadas, mal interpretadas ou esquecidas por alguns. Porque, no fim, o que importa é que elas existam.

Assim como Llosa dedicou seu silêncio ao Peru, talvez devamos dedicar nossas palavras ao futuro. Um futuro que não seja feito apenas de números, mas de histórias, de humanidade, de esperança.

Emanuel Rodrigo de Andrade Teles é advogado, Diretor Jurídico da Fundação Cetrede

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