Gênios. Por Angela Barros Leal

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Como você se sentiria ao avaliar o trabalho de um homem denunciado por abusar da própria filha, e que depois casara com uma enteada que vira crescer? O que você pensaria de um homem adulto que se valia de sua fama para levar meninos a repartir com ele a cama, e as maravilhas de uma casa em meio a um parque de diversões? O que você diria de um outro homem, habituado a humilhar com palavras e ações as suas seguidas mulheres, décadas mais novas do que ele, levando-as à depressão e ao suicídio?

Escuto em silêncio a barragem de perguntas retóricas que uma amiga psicóloga despeja sobre mim, sem esconder a fúria que a incendeia por dentro. Estendo as mãos sobre a mesa para segurar as mãos dela. E também para tranquilizar as minhas, pois sei muito bem de quem ela fala: de um cineasta norte-americano, famoso por seu humor neurótico; de um cantor, compositor e performer de renome mundial; de um escultor e pintor cubista espanhol, cuja obra enobrece museus em vários países.

Você consegue ver ou ler o que eles produziram, e apreciar? – ela desafia. Pego minha xícara e bebo um gole de chá. Não queria entrar no assunto que ela levanta, enquanto salgados e docinhos se equilibram na pirâmide de vidro e metal ao nosso lado.

Humanos, demasiado humanos – é a frase que desencavo da lembrança, escrita por Nietzsche, a quem nunca li, mas a quem sempre é elegante recorrer. O fato de serem todos eles tão humanos quanto nós, sujeitos a erros, já não seria uma forma de entender, e de aceitar? – contemporizo eu, as mãos retorcendo fictícios lencinhos bordados, na tentativa de amenizar a dureza do assunto.

Não, ela não acha nada disso, e se enfurece comigo. Você faria coisas graves assim, e aceitaria ser louvada, adorada, chamada de gênia por meio mundo?

Nunca ouvi falar em nenhuma ‘gênia’ – retruco, ainda tentando fugir pelas bordas das inquisições dela. Não recordo de ter ouvido alguma mulher na área cultural ser chamada de ‘gênia’, ganhando as ‘licenças poéticas’ que a genialidade traz, entre as quais o direito de corromper, de abusar, de destruir, de prejudicar outras vidas.

Não preciso que ela pressione mais. Estou previamente rendida aos argumentos apresentados, em especial por ter lido há pouco o livro Mau selvagem, no qual o autor Lira Neto apresenta, de corpanzil inteiro, a figura de Oswald de Andrade, fundamental para a Semana da Arte Moderna de 1922, até hoje reconhecido e louvado.

O livro me deixou aflita. Confesso a ela que, ‘enquanto mulher’ – como se costumava dizer –, enquanto mulher a leitura do livro sobre esse escritor brasileiro mais conhecido do que lido, fundador de movimentos literários avant la lettre, sobre quem uma chuva de páginas gloriosas produzidas por outros escritores têm sido derramada há um século –, se constituiu um real desafio.

Doeu contabilizar, na extremamente bem cuidada pesquisa biográfica, a trilha de corpos machucados, o rastro de corações feridos, de mortes acontecidas em decorrência direta (ou não) da ‘genialidade’ de Oswald de Andrade (uma rima sem solução). Como se o desrespeito e o egocentrismo extremos, embrulhados no manto gasto do Amor, impulsionassem sua inspiração. Um elemento antropofágico, um pouco como se sacrifícios humanos ou, mais frequentemente, sacrifícios de crianças e jovens mulheres, precisassem acontecer para nutrir seu espírito criativo.

Comento com a amiga que a leitura desse livro me levou à leitura de um outro: Monsters – a fan’s dilema, de Claire Dederer. O título resume a ópera: a dificuldade sofrida pelos admiradores, hoje em dia, para separar a Arte do artista. Para desvencilhar a grandeza da obra da maldade dos atos pessoais. Para apartar o produto a ser consumido da biografia do produtor.

Em defesa dos gênios que estão sub judice nessa mesa, e com o intuito de não cometer injustiças, digo à minha amiga que os personagens antes mencionados se encontravam, todos eles, ancorados em suas circunstâncias ao erguer seus memoriais de sacrifícios. É assim que as coisas eram – justifico.

Por ela já estar mais calma, a essa altura entretida nos docinhos, é minha vez de fazer uma pergunta cruel, para a qual não tenho resposta fácil: Como você imagina que seria a Arte, as várias formas da Arte, sem a existência desses gênios?

Sem dizer uma só palavra, as bocas ocupadas disfarçando o que pode ter sido um certo sentimento de culpa, baixamos nossos olhos que concordaram em silenciar.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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