Quando o sentido chega depois; Por Gera Teixeira

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O relógio marca horas, mas a vida não. Há acontecimentos que passam como quem não fosse nada e, de repente, anos mais tarde, acendem uma luz onde antes só havia sombra. Não é o fato que muda. Muda o olhar que o alcança. Como uma fotografia revelada tarde demais, a imagem aparece quando já havíamos esquecido o instante do clique.

Recordo uma cena pequena. Um corredor claro numa manhã de domingo. A porta da cozinha batia de leve. Havia cheiro de café, o tilintar de uma colher rodando no copo, uma risada curta no fundo da casa. Um olhar cruzou o meu e seguiu adiante, como quem confirma que o dia começou. Guardei apenas o clarão desse instante, um cartão-postal esquecido na gaveta da memória. Muito tempo depois, outra manhã qualquer trouxe o mesmo cheiro e o mesmo tilintar em outro lugar. Bastou isso para a lembrança acender inteira e ganhar um significado que antes não tinha.

A vida psíquica tem essa estranha geometria. O acontecimento pede tempo para tornar-se causa. Não se trata de inventar o que não houve, mas de perceber que só entendemos certas coisas quando a palavra encontra a experiência. O sentido chega depois e, quando chega, reorganiza tudo. O coração redesenha a cronologia, decide o que foi decisivo e o que era apenas ruído.

Talvez por isso as histórias de família se repitam com roupa nova. Herdamos modos de amar, modos de calar, modos de nos afastar de quem gostaríamos de estar perto. Um gesto de carinho que nunca veio pode criar desertos longos. Um elogio que faltou se transforma em busca sem fim. Quando finalmente alguém nos vê, é como se o primeiro olhar de infância se acendesse por empréstimo. A cena tardia salva a antiga do esquecimento e a vida recomeça.

No cotidiano a mesma lógica se insinua. Uma cidade que ignoramos durante anos subitamente parece bela. Uma amizade comum revela sua delicadeza quando o acaso a desafia. Um trabalho pesado se torna digno quando entendemos para quem e para quê ele é feito. Nada disso existia antes como significado. Existia só como gesto repetido. O depois nos oferece o texto que o antes não conseguia ler.

No cuidado com a palavra, o que cura não é desenterrar fatos, mas dar lugar ao tempo do sujeito. Ao narrar, a pessoa vai costurando cenas que pareciam soltas. A escuta funciona como casa de revelação. O que antes era quadro borrado ganha contorno. Não há mágica. Há paciência e linguagem. O passado se entrega à gramática do presente e o futuro abre passagem.

Também aprendemos a perdoar com essa chave. Às vezes o perdão só chega quando compreendemos a precariedade de quem erra e a frágil medida humana que atravessa a todos. Outras vezes não chega e está certo que não chegue. A ética não apaga feridas. Apenas nos lembra que somos maiores que um único momento e que podemos não repetir o que nos feriu.

No fim, a posterioridade é a chance de redizer a própria história sem mentir para ela. É a possibilidade de caminhar com as marcas sem reduzi-las a destino. O relógio da parede seguirá marcando minutos. O relógio íntimo seguirá marcando descobertas. Entre um e outro, escolhemos o rumo das próximas páginas.

Gera Teixeira é empresário ítalo-brasileiro com atuação nos setores de construção civil e engenharia de telecomunicações. Graduado em Marketing, com formação executiva pela Fundação Dom Cabral e curso em Inovação pela Wharton School (EUA). Atualmente cursa Pós-graduação em Psicanálise e Contemporaneidade pela PUC. Atuou como jornalista colaborador em veículos de grande circulação no Ceará. Integrou o Comites Italiano Nordeste, órgão representativo vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália. Tem participação ativa no associativismo empresarial e sindical.

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