Por Fabíola Rocha
Estes dias, aqui em São Paulo, presenciai um fato inédito no avanço tecnológico do aparato urbano. Uma supercarreta de 540 toneladas, literalmente, parou a Rodovia Presidente Dutra durante o transporte de um transformador gigante fabricado em Guarulhos. Um frete de R$2 milhões com 120 metros de comprimento e 380 pneus.
Para transportar a carga milionária, foram necessários 3 cavalos mecânicos, uma mega operação composta por várias equipes contendo especialistas que interagiram em mais de 50 profissionais nesta operação que alcançou o valor de R$4,5 mil só em pedágio.
O trajeto, desta vez, não teve como ponto de saída do Brasil o Porto de Santos, mas o Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro. Na descida da Serra das Araras, o comboio avançou numa velocidade a apenas 5 km/h para garantir segurança total. Ainda contou no percurso com imprevistos climáticos, ajustes logísticos, desafios estruturais colossais, dificuldades na altura dos viadutos, quebra de caminhão, burocracias, atrasos, interdição de pista e motoristas esperando por horas.
O transformador inteiro, montado peça por peça pela multinacional WEG, é a quarta unidade de uma encomenda total de 14 transformadores. Essas unidades todas juntas possuem potência suficiente para alimentar com energia duas cidades de São Paulo ou uma Nova Iorque com tecnologia 100% brasileira. Especialidade da WEG, fundada em 1961, em Santa Catarina, em projetos de alta complexidade que se tornou uma potência global na Arábia Saudita e África do Sul.
E qual o destino desta mega operação? Onde, como e quem utilizará tal equipamento destas proporções como um lego gigantesco?
O equipamento tem como destino uma cidade futurista! A cidade é vendida como um “laboratório urbano” e um “novo modelo de civilização”, com previsão de etapas operacionais antes de 2030. Um megaprojeto da Arábia Saudita que pretende revolucionar o conceito de cidade sustentável movida a energia renovável no meio do deserto.
A NEOM é uma megacidade futurista no noroeste da Arábia Saudita, projetada com energia 100% renovável, sem carros ou ruas, focando em sustentabilidade e tecnologia de ponta, como o projeto linear “The Line”. O roadmap, parte da Saudi Arabia’s Vision 2030, visa diversificar a economia saudita com inovações como a cidade industrial flutuante Oxagon, o resort de montanha Trojena e o resort insular Sindalah.
O The Line serão duas estruturas espelhadas de 500m de altura e 170km de extensão, projetadas para abrigar 9 milhões de pessoas, com previsão de conclusão reduzida para 2,4 km até 2030 tendo como locais estratégicos o resort Sindalah, a indústria tecnológica Oxagon e aportes financeiros nos investimentos em turismo de montanha visando também os Jogos de Inverno de 2029 previstos no arcabouço Trojena.
Tendo por escopo lastrear o projeto em pilares da sustentabilidade focados em energia solar e eólica, dessalinização de água e transporte de alta velocidade, os desafios financeiros com os altos custos de investimentos (estima-se até $4,5 trilhões de dólares), desafios técnicos de engenharia e controvérsias sobre o deslocamento de comunidades locais estão sendo analisados em vista de mais adequadamente superá-los.
A estimativa inicial era entregar 3 transformadores em 2 meses, ocorre que a primeira supercarrega chegou em 75 dias, a segunda em 60 dias e a terceira em 45 dias. No caso, mais de 3 meses de atraso. Fato que demonstra quanto a engenharia de logística e confluência de estudos e pesquisas na interação entre os setores público e provado são fundamentais para a otimização de investimentos.
Ainda faltam entregar 11 transformadores de centenas de milhões de reais, máquinas que geram emprego e renda no Brasil onde toda a cadeia produtiva paga impostos, mas a estrutura brasileira para honrar os prazos diante dos compromissos internacionais é um hiato que precisa ser dirimido. Os compradores, agora, querem que sejam entregues 2 transformadores por navio e não mais 3. Esta opção visa reduzir os atrasos no projeto também em busca de uma reconstrução e aperfeiçoamento da infraestrutura brasileira.
Enquanto a Arábia Saudita acelera rumo à sua visão de 2030, o episódio escancara um contraste: o Brasil tem tecnologia para fabricar equipamentos gigantes, mas ainda enfrenta gargalos históricos em infraestrutura logística pelas rodovias do país com carência de incremento em hidrovias, ferrovias e outros modais que possam efetivar a dinâmica do crescimento econômico.








