De cara com a natureza; Por Angela Barros Leal

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Os pequenos retângulos da placa de aço, com não mais de alguns centímetros de espessura, ou quem sabe milímetros, eram o que nos separava do abismo entre o piso do bondinho, a 800 metros de altitude, e o duro verdor da terra lá embaixo. A distância entre as plataformas de partida e de desembarque era de 330 metros em linha reta. Ou de 540 metros, segundo o técnico que nos acompanhava, caso eu quisesse tomar como base os cabos em diagonal sustentando a descida do pequeno grupo de sete pessoas. Oito, contando com o dito técnico.

Dizem os especialistas que ocupar o pensamento com cálculos mentais reduz o medo. O que já se faz suficiente para justificar a rapidez com que eu me apegava aos números, e com a qual adicionava o peso provável de cada um de nós, ocupando espaço em um veículo com capacidade para exatas oito criaturas – sendo o rotundo técnico o maior responsável por alguma eventual ultrapassagem do peso.

Eu, que mal e mal estudei matemática, em questão de segundos tentava recordar antigas fórmulas envolvendo o misterioso x, interessada em calcular, com funções terapêuticas, a velocidade do dito bondinho. São só 3 minutos de descida – tranquilizava o técnico, bocejando, indiferente à paisagem que nos circundava.

De um lado, o gigantesco paredão de granito, empilhado em camadas de pedra de aspereza agressiva, distanciava-se à medida que descíamos em uma velocidade X e cruzávamos, a meio caminho, com o outro bondinho no percurso inverso, ascendendo a uma velocidade Y.

Do outro lado do paredão, e abaixo, e em volta, e em tudo em torno de nós, o assombro do verde intenso das árvores de grande porte, ainda úmidas pelo temporal que desabara à noite: os paus-d´arco, as barrigudas, os pés de jatobá e de babaçu, identificados aqui e ali pelo técnico, que apontava também as cachoeiras do Cafundó, do Gavião, da Murimbeca, as trilhas que conduziam a cada uma delas.

Mais marcante do que tudo foi ouvir o ruído da chegada do bondinho ao que eu poderia chamar de terra firme, não fosse a entrada da gruta ainda tão distante do chão. Quantos pés teriam pisado ali antes de nós, no decorrer dos séculos. Quantas mãos teriam buscado apoio nos mesmos trechos de pedra, quantos deixaram suas marcas no que seriam as paredes da gruta, ou no teto baixo da sua entrada.

Valderi. Guida. Antônio. Afrânio. Esses com certeza andaram por ali, embora não tenham feito o registro das suas passagens com o mesmo empenho de um certo João Batista, que em 18 de novembro de 1956 se dera ao trabalho de subir a serra com uma lata de tinta vermelha e um pincel grosso, marcando para sempre, em letras maiúsculas, o dia da sua visita. Nem com o cuidado de alguém que desenhara ali a data de 1934, em indelével marcação.

Do lado de dentro as marcas pertencem ao domínio da Natureza, transformando o gotejar de água e carbonato de cálcio em estalactites e estalagmites, milhares e milhares de anos para criar a arquitetura de cada uma delas. Do lado de dentro, nos espaços vazios sobre os quais a montanha repousa, a sucessão de salas batizadas a partir da imaginação dos visitantes: Sala das Rosas, das Cortinas, dos Retratos. Um palácio de beleza pétrea, interligado por labirintos.

A iluminação artificial ao longo do percurso nos livra da absoluta escuridão – que ainda assim a guia faz questão de exibir. Apesar da discordância temerosa de alguns integrantes do grupo, entre os quais me coloco, ela propõe o desligamento das luzes. Três toque seguidos no painel de controle e estamos todos cegos. Mergulhados na escuridão primal em que se encontrava o mundo antes do primeiro dia da criação, como narra o Gênesis, antes daquele dia em que Deus separou a luz das trevas.

Escuto pulmões que arquejam, além dos meus. Pressinto o voo baixo dos morcegos, sinto no chão o ressonar da montanha, o suspiro abafado procedente das entranhas da terra, durante os minutos que se parecem com dias e meses.

Quando a iluminação retorna, seguimos a guia até surgir a luz ao fim do túnel, do qual emergimos como mergulhadores ansiosos por oxigênio puro.

Na volta, dentro do bondinho, não mais me ocupo com os cálculos da ascensão. Preocupo-me, é fato, em como escapar da obrigação grupal seguinte, a de “fazer uma trilha”, outro destaque da programação de aventuras – essa envolvendo pedras escorregadias, mato molhado, plantas com espinhos, macacos-prego agressivos, em legítima defesa de seu território, torrentes de água gelada desabando dos céus, além de um catálogo completo de insetos hematófagos que dariam glórias ao trabalho de qualquer entomologista.

Natureza em excesso me assusta e tenho um argumento lógico a meu favor: se o ser humano demorou tantos milênios para sair da selva, para deixar a floresta, para abandonar o mundo como ele foi feito, quem sou eu para desprezar tamanha conquista…


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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