Por Aldairton Carvalho
A globalização, que ao fim do século XX parecia irreversível, já não explica sozinha a dinâmica do sistema internacional. O mundo integrado por cadeias produtivas globais, instituições multilaterais e interdependência econômica dá lugar, nas primeiras décadas do século XXI, a uma configuração mais fragmentada, politizada e estratégica. A lógica de mercado cede espaço, novamente, à lógica do poder.
Crises financeiras, guerras comerciais, disputas tecnológicas, sanções econômicas e conflitos regionais revelaram que o Estado nunca deixou de ser central. A chamada “policrise”, que combina rivalidade entre grandes potências, transição energética e revolução digital, acelerou a reorientação de fluxos comerciais e financeiros por motivações geopolíticas. A globalização não desapareceu; tornou-se seletiva. Países negociam mais com parceiros geopoliticamente convergentes e protegem setores estratégicos como energia, tecnologia e infraestrutura.
Nesse cenário, consolida-se uma configuração bipolar, com Estados Unidos e China como polos centrais. Ao mesmo tempo, ganha força o discurso de uma multipolaridade em construção, impulsionada por potências médias e pelo chamado Sul Global. O poder norte-americano segue predominante, mas enfrenta o crescimento econômico e tecnológico chinês e a atuação militar-energética da Rússia. A governança global fragiliza-se; a competição estratégica se intensifica.
Para países médios como o Brasil, a nova ordem impõe escolhas complexas. A neutralidade clássica torna-se cada vez menos viável em um sistema de interdependência assimétrica. Alinhamentos automáticos podem gerar custos elevados; ambiguidade excessiva pode resultar em irrelevância.
É nesse contexto que emergem três conceitos-chave da teoria das Relações Internacionais: balancing (equilibrar-se contra a potência dominante), bandwagoning (alinhar-se à potência hegemônica) e hedging (combinar ambas as estratégias para reduzir riscos e ampliar oportunidades). Nos últimos anos, a política externa brasileira oscilou entre esses modelos, ora aproximando-se dos Estados Unidos, ora buscando maior autonomia via BRICS e relações com a China.
O hedging oferece flexibilidade e capacidade de adaptação diante da rivalidade sino-americana. Contudo, sua adoção acrítica pode transformar-se em postura excessivamente reativa, reduzindo o Brasil a um gestor de incertezas entre polos de poder. A volatilidade da política externa, marcada por mudanças de orientação a cada governo, também compromete previsibilidade e credibilidade internacional.
O desafio brasileiro, portanto, não é apenas equilibrar-se entre Washington e Pequim, mas construir uma estratégia de Estado, de longo prazo, que combine adaptação sistêmica com autonomia diplomática e liderança regional. A China é hoje o principal parceiro comercial do país; os Estados Unidos permanecem ator decisivo em termos políticos, tecnológicos e de segurança.
Num mundo fragmentado e competitivo, a relevância do Brasil dependerá menos de neutralidade retórica e mais de clareza estratégica. Entre a acomodação e o alinhamento automático, o caminho mais promissor parece ser o da autonomia negociada: manter relações pragmáticas com ambos os polos, fortalecer a integração sul-americana e atuar de forma propositiva na construção de uma ordem internacional menos assimétrica.

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