
Em abril de 2020, quando ainda comandava o Banco Máxima, Vorcaro já era alvo de um mandado de prisão na Operação Fundo Fake, da Polícia Federal, que investigava desvios milionários em institutos de previdência municipais. Ele não foi preso. Desapareceu por alguns dias, recorreu à Justiça e acabou beneficiado por uma decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, do TRF-1, que impediu o oferecimento de denúncia criminal.
Ali, possivelmente, perdeu-se a chance de cortar o problema pela raiz.
Um excelente texto da jornalista Mariana Barbosa, do UOL, destrincha os antecedentes do escândalo.
Se a investigação tivesse avançado sem bloqueios — incluindo as operações anteriores Papel Fantasma e Encilhamento, que já apontavam a mesma rede de operadores, fundos e instituições — dificilmente o país estaria agora discutindo o colapso do Banco Master e um rombo que ultrapassa R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito.
A engrenagem já estava montada. O que faltou foi interrompê-la.
O que veio depois
Não apenas Vorcaro permaneceu livre. Ele foi autorizado pelo Banco Central a assumir o controle do Banco Máxima, um processo que levou mais de dois anos e meio para ser aprovado. A autorização veio já na gestão de Roberto Campos Neto. Segundo investigação da Polícia Federal, o banqueiro contava com apoio interno do então diretor de fiscalização do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza, que teria atuado dentro da instituição em favor dos interesses do banco.
Ou seja: enquanto as investigações avançavam lentamente, a estrutura institucional que deveria impedir riscos ao sistema financeiro autorizava a expansão do grupo.
Os mesmos nomes
As reportagens sobre o escândalo atual repetem uma lista de instituições que já apareciam nos inquéritos de quase uma década atrás:
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Banco Máxima
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Reag
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Sefer
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Foco DTVM
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Brazil Realty
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Milo
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Índigo
Todas haviam sido alvo de buscas ou pedidos de prisão na Operação Fundo Fake. Até o notório doleiro Alberto Youssef, personagem central da Lava Jato, aparece nos registros das investigações. Em 2016, ele atuava junto à corretora de câmbio do próprio Banco Máxima.
A engenharia do patrimônio
A família Vorcaro já se movimentava no entorno do banco antes mesmo de 2016. Foi nesse período que começaram a ganhar corpo operações envolvendo fundos imobiliários com ativos inflados, utilizados para turbinar artificialmente o patrimônio do grupo. Entre os operadores estava Henrique Vorcaro, pai de Daniel — pastor ligado à Lagoinha Church, em Belo Horizonte, e também corretor de imóveis.
Em 2017, quando os esquemas com institutos previdenciários já se espalhavam pelo país, o Banco Máxima estava praticamente quebrado. Foi então que Vorcaro apareceu como salvador do banco. Um salvamento financiado por um patrimônio cuja origem já estava sob investigação.
O que a decisão do STF revelou
O despacho do ministro André Mendonça, que determinou a prisão de Vorcaro nesta semana, torna oficial algo que já era comentado nos bastidores há anos. O caso não é apenas um escândalo financeiro. A Polícia Federal descreve uma organização criminosa com características de milícia, infiltrada em órgãos do Estado e com acesso a informações sigilosas de investigações. O grupo operava inclusive um WhatsApp chamado “A Turma”, onde se discutiam estratégias para neutralizar adversários. Entre as ameaças relatadas nas investigações estava simular assaltos para intimidar jornalistas que publicassem reportagens inconvenientes.
As prisões
Além de Daniel Vorcaro, foram presos:
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Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro
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Marilson Roseno da Silva, policial aposentado
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Luis Phillipi Mourão, apelidado de Sicário
O apelido não deixa dúvidas sobre o papel que exercia. “Sicário”, na tradição criminal latino-americana, significa assassino de aluguel. Já o ex-diretor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-servidor Belline Santana cumprem medidas cautelares com tornozeleira eletrônica.
A questão inevitável
Se Vorcaro tivesse sido preso em 2020, como determinava a Justiça na época, muita coisa poderia ter sido diferente. Talvez nem sequer existisse Banco Master. Talvez não houvesse rombo bilionário, que transformou os escândalos de millhões ao longo das últimias duas décadas em coisa pequena.
Com a prisão efetivada, muito provavelmente a rede criminosa não tivesse tido tempo para se infiltrar em instituições da República. Às vezes, o problema não é a falta de investigação. É quando ela chega tarde demais.






