Povo, modo de usar; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

COMPARTILHE A NOTÍCIA

“Cada povo tem o governo que merece.”Joseph de Maistre

“É preciso erguer o povo à altura da cultura e não rebaixar a cultura ao nível do povo.”Simone de Beauvoir

“Mísero o povo que carece de ‘lados’.”Luiz Roberto Bodstein

De povo, gostam de falar os políticos. Outrora, essa categoria social — povo — confundia-se com o conceito de sociedade. Aos poucos, fomos nos livrando de algumas referências, revistas na academia de acordo com modelos que passaram a dominar a política. “Povo” foi uma delas.

De outra parte, por razões identitárias relevantes, foram colocados sob suspeição alguns vocábulos considerados ofensivos, quando não discriminatórios. “Elite”, “raça” e outros termos, carregados de intenções e arranjos ideológicos, foram proscritos do círculo da linguagem culta — e também do uso popular.

Já em outro plano de conveniências assentadas, expressões consagradas no campo da filosofia política sofreram restrições prudentes.

A categoria social “classe média”, situada entre a pobreza e a riqueza — entre burgueses e proletários —, cujo batismo se deu na matriz da dogmática marxista, foi associada por alguns sociólogos a um viés fascista. Socialistas de têmpera populista esmagam a classe média com leis e impostos, rebaixando-a a obrigações subalternas. Como se fosse possível reduzir as aspirações humanas à autoridade do Estado, entre os regramentos do partido e o trabalho, numa rígida “ditadura do proletariado”…

Retomemos, então, o ponto de partida: afinal, o que seria o povo? Como se constitui e se organiza? De que ideias e anseios é feito? Para que serve o povo?

Em um consenso mais amplo, diz-se que são vínculos identitários e sociais que unem um grupo, distinguindo-o de outros: valores, anseios, afinidades, uma história e cultura comuns, origens étnicas e uma certa tendência à formação de grupos e “lados”, como forma de ajuste de conflitos.

Um povo é a síntese de sentimentos plurais, contidos pela convivência e pela tolerância no espaço de uma coletividade. É o somatório de indivíduos tornados pessoas, com famílias estruturadas, instruídas e, desejavelmente, educadas; com escolaridade completa, aproximadas por uma cultura comum. Florestan Fernandes enfatiza a importância da educação na constituição do povo: “Um povo educado não aceitaria as condições de miséria e desemprego como as que temos”.

Um aglomerado de indivíduos sem educação, sem o essencial à sua sobrevivência, sem saúde e sem oportunidades de realização pessoal é, antes, um ajuntamento solidário no árduo desafio da sobrevivência. Torna-se vítima fácil da esperteza dos políticos, peça eleitoral de um jogo que busca revestir a infâmia da pobreza e da miséria sob a aparência de um sistema que pretende apresentar-se como democracia.

Sem educação e carente de saúde como direito à vida, a categoria povo não se completa, por lhe faltar o essencial: a consciência política que lhe permitiria utilizar os meios devidos na defesa de seus direitos.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Ceará consolida elite da educação brasileira no Ideb; Brasil segue sem atingir metas do ensino médio

TRE rejeita tese do relator e mantém Federação União Progressista na chapa de Ciro Gomes

Quaest abre vantagem para Ciro, mas a campanha ainda reserva muitas variáveis

Emandas bilionárias e outros privilégios deve baixar índice de renovação de mandatos federais

Selo do TSE divide institutos; AtlasIntel apoia iniciativa e acende debate sobre precisão das pesquisas

Aval de Lula consolida Cid Gomes como candidato ao Senado e aproxima definição da chapa governista no Ceará

O Duplo Twist Carpado de Mauro Filho

Obtuário: Cid Carvalho, uma voz que atravessou gerações da comunicação e da política cearense

A chapa dos sonhos do governismo no Ceará

Jogando na defesa e no ataque, Romeu Aldigueri se torna referência no enfrentamento com a oposição

Ceará como um dos elos da nova cadeia automotiva mundial e a bad trip da nossa política

O silêncio de Cid Gomes não é dúvida. É método.

MAIS LIDAS DO DIA

Dívida social; Por Angela Barros Leal

Vendas de automóveis crescem 25,7% no Ceará em julho, aponta Fenabrave

Rio de Janeiro - Edifício sede da Petrobras no Centro do Rio. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Petrobras anuncia R$ 17,4 bilhões em dividendos após recorde de produção

Famílias perderam R$ 62,5 bilhões com apostas em bets

STF autoriza abatimento de medidas cautelares na pena de condenada pelo 8 de Janeiro

Projeto amplia direitos do Estatuto da Pessoa Idosa para pessoas com deficiência a partir dos 50 anos

CEO da VSM vai à AJE Talks e debate reputação como ativo estratégico para empresas

Ceará terá representante no júri do Festival do Clube

Mudança de rota de Romeu Aldigueri fortalece plano de Cid para PSB manter comando da Alece